Uma pequena motocicleta, pesando cerca de 100 kg e equipada com um modesto motor de 125 cilindradas, poluindo mais do que um carro de 1,5 tonelada? Sim, isso já foi verdade. Até o início deste século, o controle das emissões de poluentes no Brasil era praticamente inexistente.
As antigas motos carburadas chegavam a emitir até 15 gramas de monóxido de carbono (CO) por quilômetro rodado – níveis hoje impensáveis. Em alguns casos, podiam poluir até dezenas de vezes mais do que um automóvel da época. E, pior, persistia o mito de que motocicletas eram naturalmente menos poluentes. Não eram.
Hoje, o cenário é outro. Uma moto equivalente emite entre 0,5 e 1,5 g/km de CO, resultado direto da evolução tecnológica e do avanço da legislação ambiental.
Para efeito de comparação, um carro que chegava a emitir até 80 g/km no passado hoje pode atingir cerca de 0,2 g/km. A diferença mostra o tamanho da transformação — e como motos e automóveis seguiram trajetórias semelhantes, ainda que em ritmos diferentes.
Mas como foi possível essa mudança?
Até os anos 1990, limitações técnicas faziam das motocicletas verdadeiras poluidoras ambulantes. O sistema de carburação gerava uma mistura imprecisa de ar e combustível, muitos modelos utilizavam motor dois tempos, que eram altamente ineficientes, e parte do combustível era perdida antes mesmo da queima. Não havia catalisadores, e os poluentes eram lançados diretamente na atmosfera. Ao contrário dos automóveis, as motos não passavam por controles rigorosos.
A virada começou com a regulamentação ambiental, a partir de 1986, que passou a impor limites e exigir soluções técnicas. Vieram o catalisador, a injeção eletrônica e, posteriormente, o Promot (Programa de Controle da Poluição do Ar por Motociclos e Veículos Similares), lançado em 2003.
Os efeitos não foram imediatos. Em 2007, enquanto os carros já apresentavam emissões bastante reduzidas, as motocicletas ainda emitiam cerca de 2,3 g/km de CO — quase sete vezes mais. Mas a evolução se acelerou.
A injeção eletrônica permitiu o controle preciso da mistura ar-combustível, enquanto a melhoria na qualidade dos combustíveis (com menos enxofre e maior uso de etanol) contribuiu para reduzir ainda mais as emissões.
O resultado foi expressivo: as motocicletas reduziram em cerca de 90% suas emissões de monóxido de carbono nas últimas décadas.
Resumo da evolução
Anos 80 — motos altamente poluentes (dezenas de g/km)
Anos 90 — carros evoluem, motos ficam para trás
2000–2005 — motos entre 6x e 20x mais poluentes
2005–2015 — queda acelerada com o Promot
Os dados do programa mostram ganhos consistentes: entre 2000 e a década seguinte, houve redução de cerca de 80% nas emissões de monóxido de carbono e 70% nos hidrocarbonetos. Ao longo do tempo, os limites de emissão de motos e automóveis se aproximaram.
Se no passado a moto foi símbolo de poluição descontrolada, hoje ela ocupa um papel bem diferente no cenário brasileiro. Além de mais limpa, tornou-se peça-chave da mobilidade urbana, especialmente com a explosão dos serviços de entrega, que transformaram a moto em instrumento de trabalho e renda para milhões de brasileiros.
E a próxima virada já começou. Com a chegada dos modelos elétricos, o veículo que um dia foi vilão ambiental passa a integrar a solução para cidades mais limpas. A trajetória da moto no Brasil mostra que tecnologia e regulação podem mudar o rumo dos impactos ambientais. Nesse caso, fez de um dos maiores emissores do passado em um aliado do futuro.
Joel Leite









