Até 2030, transporte autônomo por aplicativos movimentará até US$ 200 bilhões – o equivalente a R$ 1,1 trilhão

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No Brasil, o entendimento sobre automóveis está defasado em 20 anos, no mínimo. Ao mesmo tempo em que aplaude quem põe em dúvida a virada da eletromobilidade, o brasileiro “apaixonado por carros” não consegue enxergar a completa transformação que a direção autônoma já está promovendo ao criar um novo mercado, que movimentará até US$ 200 bilhões (o equivalente a R$ 1,1 trilhão) só nos próximos quatro anos, desafiando os três pilares que sustentaram a indústria automotiva, por mais de um século: a excelência técnica da engenharia, uma grande capacidade de produção e a força das marcas. “Em breve, automóveis sem motoristas vão transportá-lo por meio de um aplicativo semelhante ao Uber ou equivalente, da mesma forma que já ocorre em metrópoles norte-americanas como Phoenix e San Francisco. Você irá reservar sua corrida e um veículo autônomo (AV) como os da Waymo, subsidiária do Google (Alphabet), irá levá-lo ou buscá-lo”, comenta o professor de ciências da gestão e vice-reitor da Darden School of Business da Universidade da Virgínia, Michael Lenox.

Aqui, é fundamental destacar que as empresas de transporte autônomo por aplicativo com a própria Waymo, a Apollo Go (Baidu), a WeRide, a Lyft, a Pony.ai e a Zoox (Amazon) não são montadoras, tal como General Motors, Toyota e Volkswagen, e que o avanço de seus AVs deve impactar negativamente nas receitas das marcas tradicionais, que perderão US$ 130 bilhões (o equivalente a R$ 655 bilhões), segundo a gestora de patrimônio e consultoria financeira Morgan Stanley. Mesmo não sendo fabricantes, seus AVs já percorreram mais de 550 milhões de quilômetros – três vezes a distância entre a Terra e o Sol – sem motorista e, o melhor, praticamente sem incidentes. Até 2030, estima-se que só as cinco companhias citadas no início deste parágrafo terão 125 mil veículos autônomos operando, em nível global.

“Essas novas companhias não são fabricantes de automóveis. Seu negócio é o desenvolvimento de sistemas autônomos e sua implementação em larga escala”, explica Lenox. “Ocorre que poucas pessoas se dão conta de que a cada viagem sem condutor, não é apenas a segurança que é posta à prova, mas um novo modelo de negócio em que o software é o núcleo do produto. Na prática, estamos vendo o poder econômico se reequilibrando e os ganhos, que antes ficavam com os fabricantes, migrando para os desenvolvedores”, destaca o professor.

Diante deste irreversível cenário, as montadoras tradicionais devem se preparar para uma segunda onda de choque, que as impactará antes mesmo delas se reconstruírem da virada da eletromobilidade: a desestabilização de suas posições no mercado. “Os antigos fabricantes precisam gerar lucro e caixa, enquanto as gigantes da tecnologia precisam gerar crescimento. O mercado não as pressiona da mesma forma, o que dá às gigantes da tecnologia uma vantagem muito maior para investir em serviços como os robôs-táxi”, expõe o analista de transportes globais do HSBC em Londres, Mike Tyndall. “O melhor produto, o melhor automóvel, terá cada vez menos valor diante dos softwares e, principalmente, dos dados necessários para o aprimoramento do seu sistema”, sublinha Tyndall.

No final de 2022, Ford e VW encerraram a Argo AI, empresa independente financiada pelas marcas norte-americana e alemã, que desenvolvia software, hardware, mapas e infraestrutura de suporte em nuvem para AVs. Só a Ford perdeu entre US$ 2,5 bilhões e US$ 3 bilhões – cerca de 7,5% de sua capitalização de mercado – na “brincadeira”, já que o gasto com esta nova tecnologia não foi suportado por seu modelo de negócio. Traduzindo: as antigas montadoras não têm nem expertise e nem dinheiro para bancar nem a virada da eletromobilidade, quanto mais a revolução da condução autônoma. Pior, de lá para cá, o valor da Ford caiu pela metade, de US$ 97,6 bilhões para US$ 49 bilhões.

Demanda e lucro

CRÉDITO – Imagem gerada por IA, com licença para uso editorial LEGENDA – As montadoras tradicionais devem se preparar para uma segunda onde de choque, que as impactará antes mesmo de elas se reconstruírem da virada da eletromobilidade: a desestabilização de suas posições no mercado decorrente da transformação que a direção autônoma já está promovendo ao criar um novo mercado, que movimentará até US$ 200 bilhões (o equivalente a R$ 1,1 trilhão) só nos próximos quatro anos, em que automóveis sem motoristas vão transportar as pessoas por meio de um aplicativo semelhante ao Uber ou equivalente

 

A Waymo, por exemplo, ainda precisa demonstrar que é capaz de gerar lucros sustentáveis, mas sua receita anual de mais de US$ 350 milhões (o equivalente a R$ 1,75 bilhão) é bastante considerável. A pergunta que se faz é: “por quanto tempo gigantes como a Alphabet continuarão financiando um negócio que, pelo menos por enquanto, não alcançou a rentabilidade esperada?”, indaga o analista do HSBC. Os valores investidos em condução autônoma são consideráveis e o potencial de ganhos, igualmente ou ainda mais significativo. “A mobilidade autônoma irá revolucionar a indústria automotiva, já que, em vez de possuir um carro, um número cada vez maior de pessoas irá pagar apenas por suas viagens. O número de veículos necessários para o transporte de milhões de pessoas diminuirá e seu uso será mais intensivo, mas a grande questão é que a receita que os fabricantes têm, hoje, com as vendas de seus modelos zero-quilômetro, migrará para os aplicativos”, afirma Tyndall.

Não é preciso ser pós-doutorado para entender a transformação que se avizinha, que é a de produtos em serviços. De volta à Waymo, o desenvolvedor optou por operar seu próprio serviço de transporte por aplicativo, ao invés de, simplesmente, vender seu sistema de direção autônoma para montadoras. Operar uma frota própria garante maior controle sobre o negócio, mas agrega custos de propriedade dos veículos autônomos (um AV não sai por menos de o equivalente a R$ 650 mil), de manutenção, gestão (a Uber, por exemplo, disponibiliza seu sistema para os parceiros, mas trabalho e risco são por conta do motorista) e contato direto com os usuários/passageiros.

“A demanda também é um fator relativamente desconhecido, principalmente se as pessoas confiarão o suficiente em um veículo autônomo a ponto de abrirem mão de ter seu próprio automóvel”, pondera o analista da Goldman Sachs Resarch (braço de pesquisas do líder mundial em consultoria de investimentos) para os setores automotivo e industrial, Mark Delaney. Isso sem falar na regulação deste tipo de transporte, nas mudanças nas legislações tributárias e de trânsito que, por serem indispensáveis, podem retardar ou, simplesmente, bloquear os aplicativos por AVs – no Brasil, onde a classe política costuma cobrar pedágio para aprovar novas propostas, a corrupção teria que ser muito bem definida e fracionada.

Há menos de uma década, a própria Ford acreditava que novos serviços de mobilidade, incluindo a condução autônoma, dariam à empresa margens de lucro de 20% – no ano passado, a margem líquida da marca ficou em 2,5%, puxada pelo péssimo desempenho contábil no último trimestre de 2025, que foi negativo, de -24%. Analistas da IHS Markit também tinham uma previsão bastante otimista, de que os AVs atingiriam vendas globais de 600 mil, em 2025, saltando para 21 milhões, até 2035, liderados pelos EUA e pelos principais mercados europeus. A previsão não se concretizou e estes dois mercados vêm andando para trás, politicamente, retirando incentivos para EVs e AVs.

Como se vê, este é um negócio que, como todas as tecnologias emergentes, precisa de concentrar seus investimentos em escala para, então, definir se o rentável é operar suas frotas, diretamente, ou fornecer os sistemas autônomos para terceiros, uma abordagem que exige menos capital, tem menores receitas, mas que tende a trazer maiores margens de lucro. “O transporte rodoviário de mercadorias, menos complexo do que a condução autônoma em áreas urbanas, é de mais fácil implantação e de mais rápido retorno, já que pode reduzir os custos operacionais do frotista em até 45%”, lembra Delaney. “O o foco principal dos investidores, agora, está no ritmo de crescimento dos AVs e no tamanho que os seus mercados atingirão, e não se a tecnologia funciona ou não”, conclui a analista.

Todavia, a estimativa de lucro permanece com uma questão sem resposta, aumentando a pressão sobre as antigas marcas que, mesmo sendo capazes de produzirem ótimos automóveis a combustão, vêm sendo engolidas pela virada da eletromobilidade e têm, com a automação no horizonte, uma ameaça ainda maior à sua sobrevivência.