Não é só de soja que vive o biodiesel. Embora seja a leguminosa mais apropriada para o uso no motor a combustão, vários outros legumes podem se transformar em energia para a mobilidade, inclusive alguns com muito maior índice de oleosidade, casos do girassol, do amendoim, da mamona e do dendê. A soja é mais apropriada porque, além de ter alta oleosidade (de 18% a 20%), é abundante, sendo o Brasil um dos maiores produtores mundiais (Veja, mais adiante, o teor de gordura dos leguminosas) e responde por 70 a 80% do biodiesel produzido no Brasil.
Não é novidade o uso de combustível vegetal para a propulsão do motor à combustão, uma das alternativas disponíveis no momento em que o mundo luta para a descarbonização. O combustível da cana-de-açúcar está aí para provar a eficácia desta alternativa ao petróleo. Até mesmo o tomate já foi considerado para o uso em energia para motores a combustão. A novidade agora é o caminhão movido totalmente a óleo de feijão de soja.
Além da soja, os demais tipos de feijão também podem ser usados, mas eles não são economicamente inviáveis; custaria muito caro produzir biodiesel de feijão comum, pois ele é mais caro e mais escasso do que a soja. O feijão carioca, o preto e o fradinho têm baixo teor de óleo, menos de 3%, e têm alto valor alimentar; o feijão é base da alimentação brasileira.
Várias montadoras já realizaram essa experiência, com resultados positivos. A Volkswagen iniciou testes com quatro veículos usando diesel vegetal que vão compor a frota da concessionária Eco Rodovias, na malha do Noroeste Paulista, onde administra 600 quilômetros de asfalto: dois guinchos leves, um guincho pesado e um caminhão pipa. O chamado B100 é produzido de feijão de soja, uma alternativa sustentável e que pode substituir o diesel derivado do petróleo, que é altamente poluente.
Os caminhões sofreram apenas ajustes específicos e terão acompanhamento técnico contínuo da Volkswagen, que validará os modelos e apoiará a análise de desempenho. Mas não houve necessidade da substituição dos motores. São quatro caminhões em teste: Meteor 29.530 – aplicação guincho pesado, Delivery 11.180 – aplicação guincho leve e Constellation 17.190 como caminhão pipa.
Rodrigo Chaves, vice-presidente de Engenharia da Volkswagen Caminhões, explicou que a realização dos testes com biodiesel 100% puro, em parceria com a Eco Rodovias, visa validar o uso do combustível como uma rota de descarbonização, aprimorando o desempenho, a eficiência e a confiabilidade operacional de veículos da marca, como o Delivery, o Meteor e o Constellation.
Várias empresas trabalham no uso do biocombustível para a mobilidade, como a Scania, com caminhões já homologados para B100, a Volvo, com testes e motores adaptáveis, a DAF, usando frotas experimentais.
A HVO (Hydrotreated Vegetable Oil) usa diesel renovável produzido a partir de óleos vegetais, gorduras animais e resíduos em caminhões em vários países. O produto passa por um processo de hidrogenação que o torna quimicamente muito semelhante ao diesel fóssil, o que permite uso direto em motores diesel modernos, sem grandes adaptações.
De acordo com a Agência Nacional do Petróleo (ANP), da Abiove e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o B100 pode reduzir em até 90% as emissões de CO2, na comparação com o diesel fóssil.
Os testes vão revelar a eficiência desse tipo de combustível aplicado à realidade de operação rodoviária, avaliando desempenho, consumo, desgaste do motor e das peças e confiabilidade em situações reais de trabalho.
A experiência busca reduzir as emissões de carbono e demais gases de efeito estufa nas operações em rodovias, com meta de diminuir em 25% os GEE até 2026 e em 42% até 2030, considerando os Escopos 1 e 2, ou seja, tanto em relação às emissões diretas quanto nas emissões indiretas.
O B100 é apenas mais uma das possibilidades em análise dentro do conjunto de alternativas de descarbonização. Caso os resultados se mostrem positivos, viáveis e mais aderentes em relação a outros caminhos, a experiência será estendida para operações nas demais rodovias da concessionária.
“Uma parte relevante das nossas emissões de Escopo 1 vem da frota movida a diesel, composta por guinchos, ambulâncias e caminhões de apoio. Temos avaliado ao longo dos anos diferentes combustíveis e tecnologias e entendemos que o biodiesel B100 tem potencial de oferecer ganhos ambientais expressivos, com custos de adaptação relativamente baixos”, comentou a diretora de Sustentabilidade da Eco Rodovias, Mônica Jaén.
O abastecimento da frota da empresa é feito por um caminhão comboio contratado pela F8 Fuel (produtora de combustíveis especiais de baixo carbono), a partir de um tanque instalado na base de Serviços de Atendimento ao Usuário, em Araraquara, com combustível fornecido pela Brejeiro, tradicional produtora de biodiesel de soja.
O combustível de soja já provou que tem bom rendimento e reduz drasticamente as emissões de CO2 em relação ao diesel derivado de petróleo. A DAF é uma das marcas que usa o B100 em seus caminhões, com testes que revelaram bom aproveitamento. A Scania já comercializa caminhões homologados de fábrica para uso com B100. A Volvo tem a tecnologia Flex, onde o biodiesel e o diesel de petróleo podem ser usados em qualquer proporção.
Ford T movido a batatas
O uso de biocombustíveis em veículos automotores está longe de ser novidade. Henry Ford realizou experimentos com açúcar, madeira e milho como alternativas à gasolina em seus carros — e chegou até a usar batatas como fonte de combustível para o Ford Model T.
Ele produziu álcool a partir de diferentes grãos, vegetais e até resíduos industriais, apostando no etanol como energia do futuro.
A ideia não prosperou. Entre os fatores que contribuíram para isso estavam a consolidação da indústria petrolífera e também a Lei Seca nos Estados Unidos, que dificultou a produção e o uso de álcool ao restringir a operação de destilarias, especialmente em estados como Michigan.
Visionário, Henry Ford declarou, em 1916, ao jornal Western Brewer: “Todo mundo está esperando por um substituto para a gasolina”.
Palha de milho no tanque
A produção de combustível vegetal explora muitos tipos de matéria prima. Pesquisadores da Unicamp desenvolveram o uso de palha de milho – as sobras das colheitas – para a produção de bioenergia, criando uma técnica que usa apenas água aquecida sob pressão, a hidrólise aquosa assistida por calor.
Da palha, são extraídos açúcares fermentáveis (como glicose e xilose), compostos fenólicos antioxidantes e até substâncias que podem gerar xilitol, um adoçante natural usado em produtos para diabéticos e em cuidados bucais.
O potencial é enorme, pois o Brasil produz 60 milhões de toneladas de milho por ano, e boa parte dessa palha é desperdiçada. Agora, ela pode se tornar fonte de renda para pequenos produtores, cooperativas e indústrias locais.
A palha e o sabugo abandonados no campo são ricos em celulose, hemicelulose e lignina, compostos que formam a biomassa lignocelulósica, a base dos biocombustíveis de segunda geração, o resíduo vegetal não comestível, não competindo com alimentos.
A Unicamp, por meio de grupos do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE) e do Instituto de Biologia, e a Universidade Tecnológica Federal do Paraná, explora várias alternativas biotecnológicas para a produção de bioenergia, como fungos e bactérias, resíduos remanescentes de produtos agrícolas em geral. O uso da palha de milho como combustível faz parte do movimento global rumo à energia limpa e circular, aproveitando o que já é produzido no campo.
Como dizia João Conrado do Amaral Gurgel, lá nos anos 1990, crítico feroz do uso do álcool como combustível, “estamos usando terras nobres para alimentar o carro em vez de alimentar o homem”. Hoje, diante da necessidade imperiosa de reduzir as emissões de poluentes, provavelmente nosso Mestre reveria sua posição.
Além disso, entre alimentar o homem ou o carro, a tecnologia está tentando encontrar um meio-termo, e, cada vez mais, a resposta está nos resíduos, não nos alimentos.
Teor de gordura de leguminosas
Planta Teor de óleo (%)
Feijão carioca 1 a 3%
Feijão preto 1 a 3%
Feijão fradinho 1 a 3%
Algodão 15 a 20%
Soja 18 a 20%
Canola 35 a 40%
Girassol 35 a 40%
Amendoim 40 a 50%
Mamona 45 a 50%
Dendê 45 a 55%
Joel Leite









