“Aceleraremos nossa transformação, especialmente na redução de custos, agilizando nosso desenvolvimento e produção de veículos; e a nova geração do Twingo, concebida e lançada em apenas 21 meses, demonstra que temos capacidade para isso”. Com esta afirmativa, o novo presidente-executivo (CEO) da Renault, François Provost, apresentou os pontos-chave de sua estratégia para devolver a gigante francesa ao seu lugar de direito, no ecossistema automotivo global. Nos últimos 20 anos, a companhia viu sua capitalização de mercado despencar quase 80%, de US$ 47,4 bilhões para US$ 10,8 bilhões (o equivalente a R$ 58.6 bilhões, hoje 50% menos que a processadora de proteína animal brasileira JBS, do setor de alimentos). “O produto está e continuará no centro de nosso planejamento, com previsão de investimentos tanto na Europa como a nível internacional, em veículos elétricos (EVs), híbridos e equipados com motores de combustão interna, priorizando valor em detrimento de volume”, sublinhou o novo chefão.

A “apresentação” do substituto de Luca de Meo, que deu no pé em junho para assumir a holding de artigos de luxo Kering (que detém as marcas Yves Saint Laurent, Gucci e Alexander McQueen, entre outras), em um encontro virtual com a imprensa especializada internacional, no dia em que a montadora os fraquíssimos resultados do primeiro semestre deste ano, marcados pela queda de 69% no lucro operacional e pelo prejuízo líquido de 11,2 bilhões de euros (o equivalente a quase R$ 71 bilhões), atribuído à irmã Nissan. Coube a Provost informar que as metas anuais da companhia foram revistas para baixo. O novo mandachuva tem 23 anos de serviços prestados ao grupo, foi diretor de compras, aquisições e relações públicas, e é um expert em China, mas se vê, agora, diante de uma situação desafiadora, para dizer o mínimo.

“O nosso maior desafio é atingir o mesmo nível de competitividade dos nossos concorrentes asiáticos, em qualquer lugar, a qualquer hora e em qualquer projeto, especialmente na Europa”, reconhece Provost, que se apresentou como um executivo pragmático e não se escondeu atrás dos ajustes contábeis da Nissan, que puxaram os números para baixo: “Nossos resultados, neste primeiro semestre, não estão em linha com nossas ambições iniciais e já tomamos medidas para atingirmos nossos objetivos”, garantiu, como que falando diretamente para investidores que vêm perdendo e continuarão perdendo dinheiro com a montadora. “Estamos determinados a manter a lucratividade do negócio”, frisou, destacando que o grupo, que também inclui Dacia e Alpine, aumentou sua receita em 2,5% (para 27,6 bilhões de euros ou R$ 174,5 bilhões), entre janeiro e junho.

Investidores e Brasil

Não é preciso ser acionista da Renault para compreender que Provost irá atender, prioritariamente, as demandas destes investidores. Com relação aos produtos, aos automóveis que os consumidores adquirem e usam, a previsão é de precarização por meio da redução dos custos de produção – basta o sujeito ter segundo grau completo e já ter lido três livros na vida para entender. “Iniciamos uma nova era, acelerando nossa transformação ao mesmo passo em que damos continuidade à estratégia de inovação, ao nosso modelo de negócios inovador. Inicialmente, vou me concentrar naquilo que podemos controlar em um ambiente disruptivo e recheado de incertezas, que são nosso desempenho empresarial e nossa competitividade. É claro que seguimos aspirando à liderança europeia, mas, neste momento, priorizamos nossa expansão na América do Sul, bem como o mercado indiano”, esclarece.

Em relação ao Brasil, que não só está contido como é o maior mercado da América do Sul, ele enfatiza a Dacia – nunca é demais lembrar que seus veículos, por aqui, recebem a logo da Renault – como marca-chave e assegura que a eletrificação segue na pauta. “Nossa meta é reduzirmos os no Velho Continente, onde a União Europeia (UE) imporá mais de 100 novas regulamentações até 2030”, ponderou Provost, deixando claro nas entrelinhas que o mercado brasileiro seguirá sendo vala comum para desova de modelos equipados com motores a combustão interna. “Atualmente, apenas 30% da receita vem de novos lançamentos, o que significa que, nos próximos três anos, temos que maximizar os ganhos com nossa linha atual”, não esconde.

Sobre a ameaça das mais de 100 novas marcas chinesas que produzem híbridos plug-in e EVs, o novo CEO afirmou que a Renault, “tal como outras marcas europeias” antigas, suportará a transformação em curso graças à sua estratégia multi energética – é o que veremos. Já sobre a reestruturação da cambaleante Nissan, esclareceu que o seu plano é mais do que apropriado; é necessário e que tem o total apoio do conselho da Renault, que detém uma participação de 36% na marca japonesa, enquanto a Nissan detém uma participação de 15% no grupo francês, para tanto. Vale citar que a única pergunta que o atencioso Provost não respondeu foi sobre as diferenças entre ele e seu antecessor, de Meo. Como diz meu irmão de fé João Boaventura dos Santos, o Joãozinho: “malandro é o gato, que já nasce de bidode”…