CRÉDITO – Imagens gerada por IA, com licença para uso editorial Donos de automóveis com motores a combustão estão à mercê de Donald Trump e do aiatolá do Irã: na disputa geopolítica, não importa quem bebe mais gasolina, porque é o consumidor final que paga o pato na bomba do posto, onde o litro chegou a R$ 8,60 no Itaim Bibi, em São Paulo

Os donos de automóveis equipados com motores a combustão interna serão os mais impactados pela inflação relacionada ao conflito no Oriente Médio, alerta a Transport & Enviroment (T&E), uma das federações mais ativas na promoção do transporte sustentável, que congrega 73 organizações não governamentais de 24 países, seu mais recente relatório. “Com os preços do barril de petróleo acima de US$ 100, o custo adicional de abastecimento de um carro a gasolina cresce cinco vezes mais do que o carregamento de um veículo elétrico”, aponta o diretor da área automotiva da T&E, Lucien Mathieu. No Brasil, onde pelo menos 25% do diesel é importado, o cenário é de incerteza e instabilidade. “O litro do tipo ‘A’ é vendido nas refinarias brasileiras por R$ 3,65, ainda abaixo do valor internacional, na casa dos R$ 5”, pontua o gestor de negócios e ex-presidente do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), Eberaldo de Almeida Neto. “Mas ninguém sabe se a crise irá recrudescer e, se houver alinhamento destes preços, o consumidor sofrerá os impactos”, alerta Almeida. De acordo com a Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis), desde o início dos conflitos no Oriente Médio, o litro da gasolina subiu mais de 6%, no país, trazendo uma pergunta: os EVs são capazes de blindar o usuário dos aumentos ou até mesmo de torná-los autossuficientes, em termos energéticos?

 “Crises energéticas não só alimentam os lucros sobre combustíveis fósseis, como dão força a adversários geopolíticos às custas dos motoristas comuns. Quando os preços do barril de petróleo ultrapassaram os US$ 100, em 2022, os europeus pagaram uma conta de 55 bilhões de euros (o equivalente a R$ 333 bilhões) nos postos de abastecimento, gerando um lucro de quase 105 bilhões de euros (R$ 635 bilhões) para a distribuidoras”, destaca Lucien Mathieu, da T&E. Só nas primeiras duas semanas de bloqueio no Estreito de Ormuz, por onde passa de 1/5 a ¼ do petróleo mundial, o litro da gasolina subiu entre 17,5% e 35% nos países da União Europeia (UE), enquanto o preço do galão encareceu até 25%, nos Estados Unidos – na terra do Tio Sam, o diesel está pelo menos 50% mais caro.

Não é por outra razão que, na Europa e no Brasil, os concessionários reportam um aumento na procura por EVs, nos últimos dias. “Os EVs são a melhor alternativa para reduzirmos os impactos de aumentos exorbitantes nos combustíveis fósseis, sempre que se enfrenta um choque. Só em 2024, a UE gastou 67 bilhões de euros – o equivalente a R$ 410 bilhões – em importações e a desaceleração da transição energética, defendida por políticos como o chanceler alemão Josef Merz e a presidente do Conselho de Ministros italiano, Giorgia Meloni, só prolongará o subjugo geopolítico em relação a quem pode, simplesmente, fechar as torneiras do petróleo”, explica Mathieu, acrescentando que as energias renováveis, como a eólica e a fotovoltaica, não podem ser controladas nem por Donald Trump e nem por um aiatolá.


Custo por quilômetro

Imagens gerada por IA, com licença para uso editorial. No Brasil, Fecombustíveis aponta alta de 6% na gasolina, mas na Europa, onde a inflação chega a 35%, e nos EUA, onde o diesel subiu 50%, os motoristas já estão pagando “em ouro” para abastecer seus carros a combustão; sonho de EV autossuficiente, a energia solar, pode se materializar
No Brasil, a nova crise do petróleo deve acelerar a virada energética. “Este será o melhor ano para a eletromobilidade no país”, afirma o presidente da Associação Brasileira do Veículos Elétrico (ABVE), Ricardo Bastos. “Ao contrário das previsões pessimistas, de que os eletrificados entrariam numa fase de estabilização, o excelente desempenho, no primeiro bimestre, e a atual conjuntura reforçam nossa previsão de vendas totais acima de 280 mil modelos eletrificados, até dezembro”, acrescenta Bastos. Na última semana, o preço do litro da gasolina chegou a ser ofertado em postos dos bairros do Ipiranga e Itaim Bibi, em São Paulo, entre R$ 7,70 – só no PIX – e R$ 8,60, bem acima da média nacional de R$ 6,65 apurada pela Petrobras a partir de dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e da CEPEA/USP, coletados antes de 22 de março.

Na ponta do lápis, significa que enquanto o dono de um Renault Kwid Intense 1.0 paga até R$ 0,60 (sessenta centavos) por quilômetro rodado, na capital paulista, o feliz proprietário de um Dolphin Mini, da BYD, gasta míseros R$ 0,10 (dez centavos) para rodar a mesma distância. Se o dono do Kwid percorrer uma média de 800 km por mês, terá que desembolsar R$ 480 mensais só com combustível, enquanto o proprietário do Dolphin Mini terá um aumento de R$ 80 na conta de energia elétrica. São R$ 4.000 por ano de diferença e, isso, para não ter benefício nenhum e ainda passar as noites rezando para Trump e o aiatolá do Irã se acertarem – o que, cá entre nós, é improvável que ocorra. Se a situação não se agravar, o que também é improvável, ao completar 100.000 km rodados, a escolha do Kwid terá levado seu dono a um prejuízo de R$ 40 mil, fora a desvalorização do veículo – que também tende a aumentar.

Com a escalada das agressões no Oriente Médio, o sonho de recarregamento autossificiente volta a embalar o sono dos brasileiros. “Há cinco anos, as pessoas enxergavam os veículos elétricos pelo viés ambiental mas, hoje, com a elevação dos preços dos combustíveis, eles se tornaram uma forma de proteção dos orçamentos familiares e de preservação do poder de compra das famílias”, analisa o professor de marketing e comportamento consumerista da Universidade australiana de Griffith, Gavin Northey. “Quando falamos de um EV, também não se pode esquecer do menor custo ‘operacional’ e que o recarregamento pode ser feito em casa de forma autossuficiente, por meio de energia solar”, lembra Griffith.


Gasto e satisfação

Aqui, a avaliação de um docente australiano é elucidadora, porque estamos falando do país – Austrália – com maior adoção de painéis fotovoltaicos per capita do mundo, enquanto o Brasil é uma das nações com maior potencial para uso de energia solar, devido à alta irradiância. A afirmação do especialista leva a crer que, para muitos brasileiros que gastam até R$ 5.000 anuais com combustíveis, seria possível recarregar um EV por valor irrisório, próximo de zero, mas isso deve ser melhor explicado. Primeiro, porque um veículo elétrico que consome 15 kWh para cada 100 quilômetros rodados, como um Dolphin Mini, demanda nove painéis solares de 550 W para ter suas baterias totalmente recarregadas, num local com três horas de pico de insolação. Segundo, porque só com a aquisição dos módulos fotovoltaicos, sem contar os gastos com inversor, instalação e estrutura, o motorista teria um gasto de R$ 10 mil.

O medo de a gasolina chegar a R$ 10 o litro em um ano eleitoral também fez o governo federal se mexer e iniciar testes para a adição de álcool anidro no combustível, hoje em 30%, ir a 35%, com forma de enfrentar a crise do petróleo. O Ministério de Minas e Energia (MME) já estruturou uma rede de pesquisa para viabilizar tecnicamente o aumento das misturas de biocombustíveis, em apoio à implementação da Lei do Combustível do Futuro (14.993/24). Da mesma forma, a adição de biodiesel no gasóleo usado por caminhões e máquinas também pode aumentar dos atuais 15% para 25%.

Nesta conjuntura, a expectativa é que o Brasil siga como líder em intenção de compra de EVs. Desde abril de 2025, quando a consultoria PwC apurou que 75% dos brasileiros consideram a aquisição de um modelo eletrificado, nos próximos quatro anos, o mercado nacional se destaca, superando a média global de 62%. “Por aqui, os fatores que mais impulsionam o interesse são a economia e a possibilidade de recarregar o veículo em casa”, destaca o sócio e líder da indústria de Energia e Serviços de Utilidade Pública da PwC, Adriano Correia. “O cenário da eletromobilidade seguirá ainda mais promissor, com o interesse crescendo e os usuários demonstrando altos índices de satisfação. Nenhum dos proprietários entrevistados voltaria a usar modelos com motor a combustão”, destaca Correia.