Reportagem de Julia Galter Martins, da Faesa, terceira colocada no Prêmio Autoinforme Estudantes de Jornalismo

Antes símbolo da crise ambiental, o automóvel começa a trilhar um novo caminho. Com motores limpos, materiais sustentáveis e tecnologia de ponta, tenta deixar de ser vilão para assumir um papel transformador — sem perder a emoção de dirigir.

Por muito tempo, o carro foi símbolo de tudo o que o mundo precisava superar: consumo excessivo, emissões de carbono, trânsito e individualismo. Mas, e se ele também puder ser parte da solução? Essa é a virada que a indústria automotiva começa a desenhar.

Movida por pressão ambiental, novas demandas urbanas e o avanço tecnológico, ela investe numa nova geração de veículos que prometem unir potência, design e consciência ecológica.

Mais do que reinventar o produto, trata-se de repensar o papel do automóvel no século 21: como ele pode contribuir com um planeta mais sustentável, sem perder seu apelo cultural e emocional?

A transição para os veículos elétricos é hoje o rosto mais visível da transformação automotiva. Marcas como Volkswagen, GM e Mercedes-Benz já anunciaram metas ambiciosas de eletrificação total ou parcial de suas linhas até 2035. O objetivo é claro: zerar as emissões diretas de carbono, tornando os motores silenciosos, limpos, e claro, alinhados aos acordos climáticos globais.

Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o Brasil já ultrapassou a marca de 400 mil veículos eletrificados em circulação. No mundo, a Agência Internacional de Energia (IEA) estima que os veículos elétricos (incluindo 100% elétricos e híbridos plug-in) deverão representar mais de 40% das vendas globais de automóveis até 2030, considerando as políticas governamentais e tendências de mercado atuais.

No Espírito Santo, esse movimento também ganhou tração. Segundo dados do Detran-ES, o estado já conta com mais de 16 mil veículos eletrificados emplacados, sendo a Grande Vitória o principal polo desse crescimento.

Mas não basta mudar o motor. O desafio é pensar em toda a cadeia produtiva.

Do banco ao para-choque, tudo mais sustentável

Montadoras e startups estão investindo pesado em materiais recicláveis, reaproveitamento de recursos e design inteligente. Modelos como o BMW i3, Fiat 500e e os carros da Tesla usam tecidos feitos de garrafas PET, painéis de fibra de madeira, couro vegano e plásticos reciclados de redes de pesca.

Marissol Aires, de 23 anos, é vendedora de automóveis

Para a vendedora de automóveis Marissol Aires, de 2012 pra cá, os carros híbridos e elétricos estão cada vez mais populares. “Eles (os veículos), começaram a não ser só novidade, mas uma realidade. São muitas novidades e lançamentos, chegando a uma questão não só de estética e performance, são produtos cada vez mais recicláveis, plásticos, fibras naturais, avanço na reciclagem de baterias. O 100% elétrico, que é o mais sustentável, chama sempre muita atenção”, frisou.

No Brasil, onde a matriz energética é uma das mais limpas do mundo, os biocombustíveis seguem como trunfo para essa mudança. O etanol de segunda geração, por exemplo, é produzido a partir do bagaço da cana, com baixa emissão e aproveitamento de resíduos, e a Toyota já estuda um híbrido flex movido exclusivamente a etanol.

Enquanto isso, marcas como Porsche e BMW apostam em combustíveis sintéticos (e-fuels), produzidos com captura de carbono da atmosfera, que podem alimentar motores a combustão com impacto neutro.

No Espírito Santo, uma iniciativa estadual chama a atenção: desde 2023, o governo decretou a substituição progressiva da gasolina pelo etanol nos veículos oficiais. A medida representa uma economia estimada de oito milhões de litros de gasolina por ano e evita a emissão de cerca de 13 mil toneladas de CO₂ anuais. É um exemplo claro de como políticas públicas locais podem impulsionar soluções de baixo carbono — inclusive servindo de piloto para outras regiões.

O hidrogênio verde, por sua vez, ainda enfrenta barreiras de custo e infraestrutura, mas surge como alternativa promissora para veículos pesados e de longa distância.

A tecnologia pode ser usada para tornar o carro mais inteligente. Modelos recentes trazem sistemas que desligam o motor automaticamente em paradas prolongadas, regeneram energia durante a frenagem e otimizam rotas com inteligência artificial.

Alguns já se comunicam com a rede elétrica, podendo até devolver energia à rede em horários de pico, como nos sistemas Vehicle-to-Grid (V2G), que funcionam em países como Japão e EUA. Outros operam de forma quase autônoma em tráfego intenso, reduzindo o consumo e os riscos.

Além disso, aplicativos como Uber e Bla Bla Car colaboram com esse ecossistema, oferecendo soluções como caronas compartilhadas, aluguel por hora e otimização de tráfego em tempo real, um sistema de mobilidade mais inteligente.

No cenário local, cidades como Vitória e Serra vêm discutindo planos de mobilidade inteligente, com integração entre modais, requalificação viária e até sistemas semafóricos adaptativos. O Plano de Mobilidade Urbana de Vitória, por exemplo, pretende incorporar soluções digitais e sustentáveis para melhorar o deslocamento urbano — um passo importante para que a mobilidade do futuro aconteça também fora dos carros. Em setembro deste ano, a capital capixaba foi a melhor colocada entre as cidades mais inteligentes e conectadas do Brasil, superando Florianópolis, São Paulo e Curitiba.

O novo motorista: menos posse, mais propósito

Geração Z representa uma mudança em diversas áreas

As mudanças não são apenas tecnológicas — são também culturais. A chamada Geração Z tem uma relação diferente com o carro. Em vez da posse, valoriza o uso racional, a praticidade e o impacto ambiental. Para muitos jovens, o automóvel ainda é símbolo de liberdade, mas não a qualquer custo.

No Brasil, a Hyundai também se destaca ao unir tecnologia e sustentabilidade. A montadora investe em modelos híbridos e elétricos, como o Hyundai Kona, e já anunciou investimentos voltados para a produção de veículos eletrificados. Além disso, testes com o SUV Nexo, movido a célula de combustível de hidrogênio, já foram feitos.

A empresa investe ainda em produção sustentável e gestão de resíduos. Neste ano, uma parceria para a reciclagem de fosfato já foi divulgada, e a fábrica da marca, localizada em Piracicaba, São Paulo, é um grande case de sustentabilidade como valor fundamental de uma empresa.

O carro que queremos é aquele que move não só pessoas, mas ideias, e nos leva adiante rumo ao mundo que precisamos construir.