Prejuízo com guerra tarifária de Trump chegará a R$ 110 bilhões, em 2025; já a China ganha terreno

A guerra tarifária iniciada pelo presidente norte-americano, Donald Trump, é um tiro no próprio pé e, enquanto nove dos maiores grupos automotivos do mundo esperam perdas de US$ 20 bilhões (o equivalente a R$ 110 bilhões), só em 2025, decorrentes das ações manicomiais de Trump, a China ganha terreno e pela primeira vez, desde 2014, sua cadeia setorizada investe mais fora do que dentro do próprio país. “Os investimentos externos das novas marcas chinesas crescem, rapidamente, e mesmo as barreiras regulatórias criadas em mercados como a União Europeia (EU) são prontamente superadas pelo estabelecimento de operações locais”, explica o analista sênior de pesquisas do Rhodium Group, consultoria política e econômica, Armand Meyer. “A maior parte dos aportes feitos no exterior, quase 75%, foi em fábricas de baterias. Na prática, essas gigantes que emergiram na última década vêm conquistando apoio governamental nestes mercados e expandindo seus negócios. Em termos de eletromobilidade, enquanto os investimentos internos em manufatura caíram de US$ 90 bilhões (o equivalente a quase meio trilhão de reais), em 2022, para US$ 15 bilhões, no ano passado, os investimentos externos superarão os US$ 16 bilhões (o equivalente a R$ 88 bilhões), até dezembro. Na prática, isso significa que os chineses vão, agora, atrás de retornos maiores”, acrescenta Meyer.
Enquanto o brasileiro paga mais de R$ 100 mil por um popular equipado com motor a combustão interna, fabricantes de baterias como a Contemporary Amperex Technology (CATL), o Envision Group e a Gotion High-Tech optam pelo fornecimento localizado para Tesla e BMW, eliminando os altos custos de transporte. Hoje, 15% da capacidade global de montagem de células automotivas estão fora da China, o que significa uma guinada estratégica – até agora, 80% do investimento chinês em EVs se concentrava dentro do próprio país. Com isso, as novas marcas chinesas conseguem driblar as restrições tarifárias, usando a mesma filosofia consagrada por Su Tzu em seu tratado “A Arte da Guerra”, do século V a. C.
“No último dia 15, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o presidente-executivo (CEO) da China Great Wall Motor (GWM), Mu Feng, participam da inauguração da fábrica brasileira do grupo, ao mesmo tempo em que outras montadoras chinesas lançaram ou ampliaram suas operações regionais: GWM ampliou sua capacidade externa em 80 mil unidades anuais, a MG, em 100 mil, e Changan dobrará sua capacidade atual, de 100 mil unidades por ano, para 200 mil unidades, até 2027. Na Indonésia, a SAIC-GM-Wuling já está produzindo 120 mil unidades anuais, em sua nova fábrica, enquanto a BYD finaliza a construção de uma planta que produzirá 150 mil unidades por ano”, destaca o analista do do Rhodium Group.
Não é preciso ser administrador e nem economista para notar que, enquanto as antigas montadoras ocidentais estão demitindo, cortando custos, precarizando seus veículos e fechando fábricas, as novas marcas chinesas vêm como um rolo compressor. E o mais impressionante, que a animália liderada por Trump não consegue alcançar: “A maioria dos projetos anunciados e que estão em curso são linhas de montagem e de conjuntos de baterias e não de fabricação de células de bateria”, frisa Meyer. “Há geração de empregos no exterior, mas a China não está deslocando toda sua cadeia de valor. Por isso, é fundamental compreender que os novos locais de produção no Sudeste Asiático refletem, na verdade, o papel crescente de toda a região como base industrial. Na Tailândia, por exemplo, a fábrica da BYD para produzir 150 mil híbridos plug-in anuais, em Rayong, começa o envio de veículos para a Europa ainda neste mês”, sublinha o especialista.
Em outras palavras, a guerra tarifária de Trump apenas acelera o processo de derretimento norte-americano e a consolidação da China como nova referência industrial. Mas os jumentos relincham, zurram e abanam as orelhas toda vez que o “Laranjão” aparece com seus decretos e as mais absurdas das bravatas.
Estadunidense é que paga conta
O observador mais atento já deve ter percebido que, em Pindorama, a patuleia ignara pensa que as tarifas impostas unilateralmente por Trump são pagas pelos exportadores brasileiros, o que é um equívoco infanto-juvenil, para não dizer a mais completa das idiotias. Na verdade, são os importadores norte-americanos e, por conseguinte, os consumidores norte-americanos que pagarão mais caro pelos produtos estrangeiros. No setor automotivo, que é o que tratamos aqui, a alíquota de importação para automóveis e autopeças (trens de força, suspensão e itens de segurança, só para exemplificar) é de 25% para a maioria dos países. Há pouquíssimas exceções, como uma tarifa especial de 10% para até 100 mil veículos importados da Inglaterra (acima desta cota, o percentual sobe para 25%), uma isenção para conteúdo norte-americano nos veículos importados de Canadá e México, além de um reembolso anual (para os importadores) escalonável que começa em 15% do valor do veículo, caindo para 10% até 2,5%.
Só em abril, a Honda reportou prejuízo de US$ 4,3 bilhões (o equivalente a R$ 23,3 bilhões), nos EUA, com as novas alíquotas. Já a Toyota reportou perda de US$ 1,2 bilhão (R$ 6,5 bilhões), somando os meses de abril e maio, enquanto as estimativas de Ford (prejuízo de US$ 1,5 bilhão), General Motors (até US$ 5 bilhões), Stellantis (até US$ 1,75 bilhão), Nissan (US$ 3 bilhões) e Subaru (US$ 2,5 bilhões) batem na casa dos US$ 14 bilhões (o equivalente a R$ 77 bilhões). Obviamente, no mundo do neoliberalismo este prejuízo é “cobrado” dos consumidores finais – no caso, dos estadunidenses.
“Nos próximos dez ou 20 anos, as empresas chinesas construirão ‘outra China’ no exterior, da mesma forma que outras potências industriais históricas, como Grã-Bretanha, Japão e os próprios Estados Unidos fizeram, no passado”, prevê o economista e reitor do Instituto Financeiro Avançado da Universidade de Economia de Xangai, Yao Yang. “Na verdade, estamos diante de uma boa oportunidade para as empresas chinesas remodelarem o setor global de manufatura, porque, na prática, as ameaças tarifárias e a guerra comercial não fazem mais do que incentivar a transferência da produção para o exterior. A produção de baterias, por exemplo, foi responsável por 69% do investimento chinês em EVs, dentro da China, e 74% do investimento externo”, pontua ele.
Colapso do Império
Os fabricantes chineses também estão inovando agressivamente nos processos de produção de veículos, erodindo as antigas montadoras. “Desde automação robótica a sistemas de produção digital, ou seja, sistemas de execução de manufatura digitalizados e processos inovadores de fundição sob pressão, essas novas marcas são 30% mais rápidas no desenvolvimento e lançamento de um EV. É inegável que a qualidade e dos EVs da BYD, da Xiaomi e da Li Auto, para citar apenas três referências, superam cada vez amplamente os carros da Tesla ou da BMW”, afirma o vice-presidente de política global e inovação da Fundação de Tecnologia da Informação (ITIF), Stephen Ezell. “A indústria automotiva norte-americana é grande demais para, simplesmente, falir, mas a China já lidera a produção de máquinas pesadas, veículos, metais básicos e processados, equipamentos elétricos, computadores e eletroeletrônicos, além de produtos químicos”, elenca Ezell.

O economista Yao Yang, do Instituto Financeiro Avançado da Universidade de Economia de Xangai, ainda dá um conselho para Trump evitar a bancarrota das montadoras norte-americanas: “Os Estados Unidos, em particular, deveriam acolher o investimento chinês. Para começar, isso poderia aliviar as tensões econômicas entre os dois países, como ocorreu na década de 1980, quando o Japão evitou um possível conflito com os EUA investindo pesadamente na indústria automotiva americana. Os aportes chineses abrangem uma ampla gama de tecnologias, desde a produção que demanda muita mão de obra até tecnologias avançadas como painéis solares, baterias e EVs, tornando-os adequados para vários estágios de desenvolvimento”, propõe Yang.
O “Laranjão” e toda a cadeia produtiva norte-americana parecem diante de uma bifurcação de ditados em que, de um lado se lê: “se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia”; e do outro reconhece que “quem não ouve conselho, ouve ‘coitado’”. Os decretos de Trump revelam, mais do que qualquer coisa, uma hegemonia em desfalecimento e, parafraseando o filósofo, orador e governador romano Marco Túlio Cícero (106 a 43 a. C.), sobre o fim do governo republicado de Júlio César, “quanto mais próximo o colapso do Império, mais loucas são suas leis”.








