Chery promete densidade de até 600 Wh/kg, menor risco de incêndio e alcance de até 1.500 km; BYD apresenta versões 2.0 do módulo Blade

 

O avanço acelerado das baterias é um aspecto da virada da eletromobilidade que passa, muitas vezes, despercebido pelo leitor. Nesta semana, as chinesas BYD, Chery e Great Wall (GWM) destacam suas evoluções no desenvolvimento de módulos de estado sólido (SSBs), em que os eletrólitos líquidos de íon de lítio são substituídos por polímeros, sulfetos, materiais cerâmicos ou vidro para armazenamento de energia, com ganhos em segurança contra a fuga de corrente (incêndio) e densidade (futuramente, até 600 Wh/kg), além de maior velocidade de recarga. Enquanto a GWM projeta a ampla aplicação comercial desta tecnologia para daqui cinco anos, a Geely apresentou um pacote que fará sua estreia comercial no final deste ano, ganhando volume em 2027, que permitirá autonomia de até 1.500 quilômetros. “Seguimos avançando com o eletrólito sólido de sulfeto – inorgânico. Mas há desafios em termos de desempenho e custo que demandam maior desenvolvimento antes da certificação e do início da produção”, detalha o presidente-executivo (CEO) da Great Wall, Wei Jiangnun.

 

A Chery, por sua vez, apresentou a Rhino S na última quinta-feira, em três versões com até 400 Wh/kg. Trata-se de uma bateria de estado sólido com eletrólito de polímero (orgânico), que permite autonomia superior a 1.500 km. Sua estreia comercial acontece em 2027, equipando o “shooting break” Exeed ES8. Antes dela, uma versão híbrida de estado sólido-líquido será implementada, no último trimestre deste ano, no novíssimo Exeed EX7, um e-SUV de quase 4,98 m e 2,2 toneladas, que acaba de entrar em produção como primeiro modelo do mundo com frenagem eletromecânica. “Nossa linha Rhino convencional, disponível nos formatos LFP de lâmina curta, LFP/NCM prismática e NCM cilíndrica grande, completa um ecossistema de energia inteligente com alcance de 500 km, apenas 8 min para recarga e vida útil de 5.000 ciclos”, destaca o presidente da Chery, Yin Tongyue.

 

Dois dias antes, na última segunda-feira, a BYD lançou sua nova bateria Blade 2.0 e confirmou que irá implementar sua rede Flash Charging 2.0 de 1.500 kW, na Europa, depois de estabelecer mais de 4.200 dos 20 mil pontos que terá no próprio país – serão 2.000 estações rodoviárias, cobrindo 1/3 da malha chinesa com pelo menos um ponto a cada 100 quilômetros de estrada. “A ansiedade em relação ao tempo de carregamento é uma questão para a indústria e buscamos tornar a recarga tão rápida quanto abastecer um veículo a gasolina”, comenta o vice-presidente sênior da marca, Luo Hongbin. O anúncio da expansão da rede acontece quase que simultaneamente ao lançamento do novo Denza Z9 GT – a Denza é a marca ‘premium’ da BYD Auto, que foi criada por meio de uma joint venture com a Mercedes-Benz, em 2010, e em que os alemães ainda têm uma participação de 10%.

 

Lançado como a perua elétrica “de maior autonomia do mundo”, o Z9 GT tem alcance de até 1.036 km (no Brasil, entre 440 e 560 km pelos dados preliminares do PBEV), sem necessidade de recarga das baterias. “O mais notável deste modelo não é, exatamente, sua autonomia, mas a possibilidade de uma recuperação de energia de 10% a 97% da capacidade, precisamente, em 9min8s”, destaca Hongbin. Perguntado sobre os 3% restantes, o executivo não perdeu a oportunidade de fazer uma provocação: “Deixamos esta pequenina margem para a frenagem regenerativa”.

 

Sinergia e escala

Frise-se que é a sinergia entre o lançamento da Denza e a expansão da rede Flash Charging 2.0 que garante veracidade às palavras de Hongbin, afinal, este desempenho energético impressionante é fruto da combinação da infraestrutura de 1.500 kW das estações com a nova bateria Blade 2.0 que equipa o Z9 GT. Além da versão puramente elétrica, a perua executiva de mais de 5,15 m de comprimento conta com uma opção híbrida plug-in, capaz de rodar até 400 km sem uma gota de combustível. Da mesma forma, a recarga rápida (de 10% a 70% da capacidade) leva míseros 5 minutinhos. Apesar do porte e da eficiência, o Denza Z9 GT (que já teve sua primeira unidade entregue no Brasil, para ninguém menos que o ex-piloto de F1 Felipe Massa) não decepciona em desempenho e três motores elétricos com potência combinada de mais de 950 cv o levam de 0 a 100 km/h em 3 s e à velocidade máxima de 240 km/h.

 

De volta às baterias de estado sólido, a Eve Energy, que fornece para a Tesla, a BMW e a Mercedes-Benz, iniciou a produção de seu módulo Longquan 4, de 60 Ah, e outra gigante chinesa, a Changan Automobile, reafirmou os progressos obtidos no seu projeto de SSB, em Jinzhongzhao, bem como o implemento das primeiras séries em EVs de sua gama, a partir do terceiro trimestre deste ano. Nunca é demais lembrar que a titã estatal GAC produz, desde novembro do ano passado, lotes de células de 60 Ah+ (mais de 60 amperes-hora) capazes de suportar temperaturas de até 400 graus centígrados, contra os 200 graus das de íon de lítio. Apesar da posição “conservadora”, CATL e BYD, que são, respectivamente, os maiores produtores e fornecedores globais, também confirmaram que, em 2027, iniciarão suas produções de baterias de estado sólido.

Como o leitor adulto sabe, a virada de eletromobilidade é um dos pilares de sustentação da economia livre de carbono, demandando atenção cada vez maior com segurança e desempenho energético. “Baterias de estado sólido (SSBs) proporcionam a base para sistemas mais seguros, potentes e sustentáveis, mitigando riscos por meio da eliminação do líquido inflamável dos módulos de íon de lítio”, explica a professora pós-doutora (PhD) de engenharia molecular da Universidade de Chicago e do departamento de nanotecnologia da Universidade da Califórnia, Ying Shirley Meng. São avanços importantíssimos, principalmente diante a conjuntura atual e da nova crise do petróleo, deflagrada pelo conflito no Oriente Médio, lembrando que as novas energias são, antes de tudo, uma questão de soberania e segurança nacional.