Pior queda de vendas em 16 anos, retração na China, modelo de negócio ultrapassado e demissões revelam uma marca desprestigiada

Pense na pior queda de vendas em 16 anos, com retração de 10% em relação a 2024, e some a isso perdas de 1,8 bilhão de euros (o equivalente a R$ 6,2 bilhões) nos lucros e um encolhimento de mais de 25% no volume comercial chinês, no maior mercado do mundo. Nesta conjuntura, o fato de os modelos da Porsche, outrora uma dádiva que raros motoristas só conquistavam por muito merecimento, se tornarem uma espécie de bibelô de influencers, funkeiros e gente desclassificada dos mais variados matizes é apenas um sinal de perda do prestígio. No fechamento da primeira quinzena de janeiro, as ações da Porsche caíram mais de 7% num único dia, devido a preocupações com vendas em baixa, impactos cambiais negativos e margens reduzidas. “Na verdade, um em cada quatro empregos na montadora está em risco”, alerta o presidente do conselho de trabalhadores da marca, Ibrahim Aslan. “Não há uma visão futura para as nossas linhas e a direção ameaça transferir tanto o desenvolvimento quanto a produção para países com níveis salariais mais baixos”, complementa Aslan.

Em outras palavras, o representante afirma que a situação da Porsche está tão ruim que, quando o leitor conseguir comprar o seu, o modelo em questão será um legítimo terceiro-mundista com sotaque alemão, quando muito. É óbvio, que uma perspectiva dessa faz sangrar o coraçãozinho dos apaixonados por carros, mas acaba por gerar uma interrogação até mesmo naqueles que apenas sonham em ter um 718, um 911 ou um Macan na garagem, sabe-se lá se nesta ou na próxima encarnação. “A festa de décadas acabou e, agora, temos que nos reorientar”, confessa o presidente-executivo (CEO) do Grupo Volkswagen e ex-CEO da Porsche, Oliver Blume.

O manda-chuva que, até anteontem, era o todo-poderoso da indústria alemã, teve que abrir mão da dobradinha, para se concentrar apenas na VW. Ao assumir a cadeira deixada por Blume, o ex-McLaren Michael Leiters não perdeu tempo e convocou uma reunião do conselho diretivo, ao mesmo tempo em que fez questão de ouvir os gestores das principais fábricas da montadora, em Zuffenhausen, Weissach e Leipzig. “Os desafios que temos pela frente requerem urgência”, declarou Leiters, que irá implementar um programa de reestruturação que prevê o corte de pelo menos 1.900 postos de trabalho, só na Alemanha.


Investidor está descrente

O fato de ainda se encantarem com um Porsche, faz com que o brasileiro não enxergue a dura realidade: que a marca é, hoje, a maior vítima da crise automotiva europeia. Desde que abriu seu capital, em 2022, o fabricante perdeu 61,5% da sua capitalização (de US$ 117 bilhões para US$ 45 bilhões) de mercado e, hoje, vale seis vezes menos que a rede McDonald’s – menos até que a brasileira Ambev, do segmento de bebidas. Suas ações, que chegaram a ser negociadas a US$ 132, em abril de 2023, bateram em US$ 48, em abril do ano passado – na prática, houve quem perdesse 63,3% do seu dinheiro. Por isso, os investidores estão descrentes. “Foram vários os alertas de que as margens de lucro esperadas não seriam alcançadas e o que se vê é um modelo de negócios muito limitado, ultrapassado”, avalia o chefe de governança da Deka Investment, que detém quase US$ 50 milhões em ações da marca, Ingo Speich. “A situação da Porsche não pode ser revertida em menos de cinco anos”, acrescenta o analista do Metzler Bank, Pal Skirta.

Apesar de se “popularizar”, no Brasil, a Porsche não conseguirá se reerguer sem aumentar as vendas no mercado chinês. “A marca precisa reconquistar os chineses”, pontua Ingo Speich, da Deka Investment. “O problema, neste caso, não é só identificar quanto o consumidor chinês está disposto a pagar por um superesportivo, mas convencê-lo de que a Porsche ainda tem o prestígio que, em tese, compense seu preço mais alto de aquisição”, assinala o fundador da consultoria Sino Auto Insights, Tu Le. “Hoje, a Porsche já não tem prestígio para convencer o comprador, pelo menos não no maior e mais importante mercado do mundo”, pondera Le.

O novo CEO da Porsche, Michael Leiters, acaba de trazer Tobias Sühlmann, com quem trabalhou na McLaren, para assumir como diretor de design da marca e dar novos ares a uma linha que, lentamente, vai se eletrificando. “É uma transformação geracional”, enfatiza Mauer. Há exatamente um ano, ainda na gestão de Oliver Blume, a montadora nomeou Jochen Breckner, como diretor financeiro, e Matthias Becker, como chefe de vendas. Se a chegada de Sühlmann tiver o mesmo efeito das de Breckner e Becker, será uma grande marcha-a-ré. Em tempo, a Porsche fechou 2025 com 279,5 mil unidades comercializadas em todo mundo, 22 mil unidades a menos do que o Dolphin Mini, da BYD, vendeu apenas no mercado chinês, no mesmo período.