Com o aumento para US$ 84 o barril, especialista britânico aponta que “é hora de migrar para o EV”

CRÉDITOS – imagens geradas por IA, com licença para uso editorial LEGENDA – Segurança energética e soberania nacional: brasileiros que possuem EVs estão blindados dos efeitos inflacionários dos ataques de EUA e Israel ao Irã, que visam o controle de um setor que gera até R$ 21,2 trilhões em receitas, anualmente; gasolina barata e previsível acabou e controlar o fluxo de petróleo e gás natural é usado, cada vez mais, como instrumento de pressão geopolítica

Donos de veículos elétricos estão, pelo menos por enquanto, blindados dos efeitos inflacionários do conflito deflagrado pelos ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, que visa o controle geopolítico de um setor que gera até US$ 4 trilhões (o equivalente a R$ 21,2 trilhões) em receitas, anualmente. É que o aumento de 20% no preço do barril de petróleo (de US$ 69, em 25 de fevereiro, para US$ 84, na quarta-feira desta semana) pode e deve, sim, chegar às bombas de combustíveis brasileiras na forma de um aumento de preços da gasolina e do diesel – mesmo que as chances de isso ocorrer como uma hiperinflação, na prática, sejam bem menores do que o alarmismo faz crer. “Independentemente do país em que resida, o proprietário de um EV se beneficia da maior uniformidade e estabilidade no preço da energia elétrica. E num momento em que há a possibilidade real de aumento dos combustíveis fósseis, a opção por um modelo 100% elétrico passa a se apoiar em mais este fator”, avalia o diretor de políticas rodoviárias da AA, maior organização automotiva do Reino Unido, Jack Cousens.

Na verdade, Cousens faz uma pontuação individualíssima daquilo que é uma atribuição fundamental dos Estados e que países como China, Índia, Japão, Rússia, Austrália, União Europeia (UE) e os próprios EUA já consideram um pilar da soberania nacional: a segurança energética. “O petróleo não é como a maioria das ‘commodities’ e o controle desse combustível de alta densidade energética molda a geopolítica, numa conjuntura em que 3/4 da população mundial vive em países dependentes da sua importação. Controlar o fluxo de petróleo e gás natural, cada vez mais, é usado como instrumento de pressão geopolítica, desde os choques da década de 1970 até o corte do fornecimento pela Rússia à Europa, em 2022”, explica o engenheiro pós-doutorado (PhD) em sistemas de transporte, professor de mobilidade urbana e infraestrutura inteligente da Universidade de Tecnologia de Swinburne, em Melbourne, Hussein Dia.

Em outras palavras, para a maioria dos países, a gasolina barata e previsível acabou – simplesmente, isso. A realidade cada vez mais evidente, pelo menos para quem não é um negacionista, é que os automóveis equipados com motor a combustão são uma granada no bolso do motorista que, a qualquer momento, pode ter o pino retirado por este ou aquele ator geopolítico. “O conflito no Oriente Médio, maior produtor e exportador de petróleo, e o bloqueio do Estreito de Ormuz – por onde passam quase 20 milhões de barris, todos os dias – desestabilizam o mercado global”, pontua o presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IPB), Roberto Ardenghy. “O Brasil, apesar de ser produtor de petróleo, pode ser afetado porque ainda tem seus preços internos atrelados às cotações internacionais do produto”.

Hoje, já existem mais de 16 mil pontos públicos e semipúblicos de recarga em todo o território nacional, de acordo com a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). “Se você já possui um EV, está em ótima posição e se está pensando em migrar para um, talvez a hora seja agora”, aconselha Jack Cousens, da AA britânica, lembrando que, em alguns países, o carregamento ultrarrápido na rede está mais barato, desde julho do ano passado, quando Israel e Irã tiveram um entrevero em que os EUA intervieram, prontamente.


Participação de fontes renováveis

Mesmo os mais alienados e os mais refratários à racionalidade têm ciência de que as nações funcionam à base de energia e, para a grande maioria dos países, o setor de transportes obtém mais de 95% desta energia de combustíveis fósseis. Estima-se que até de 25% do petróleo que circula mundialmente passe pelo Estreito de Ormuz, no Irã, e os países mais dependentes dessas remessas são China (onde a importação de combustíveis fósseis responde por 20% do consumo total de energia), Índia (35%), Coreia do Sul (81%) e Japão (87%). “Quando você analisa esta conjuntura, vê o Japão é o mais vulnerável, que os riscos do conflito são reais e devem ser levados em consideração, em termos até mesmo de sua segurança econômica”, pontua o consultor do grupo de pesquisas Zero Carbon Analytics, Murray Worthy – em termos comparativos, dados do Balanço Energético Nacional (BEN) indicam que a participação do petróleo e derivados na matriz energética brasileira é bem menor, de cerca de 35%.

Apesar do Brasil ter uma matriz energética com alta participação de fontes renováveis, de quase 50%, os combustíveis fósseis (gasolina e diesel) continuam dominantes no setor de transportes e os preços do petróleo estão subindo mesmo antes de uma interrupção no seu fornecimento. “O poder gerado pela dependência do petróleo permanece e sanções contra grandes produtores, como o Irã e a Venezuela, reduzem a oferta, remodelam os fluxos comerciais e acrescentam custos devido ao aumento do risco. Os mercados de petróleo, não podemos esquecer, são orientados para o futuro, o que significa que os preços refletem não apenas a oferta e a demanda atuais, mas também as expectativas sobre o que poderá acontecer a médio e longo prazos”, destaca o professor Hussein Dia.

Citando a virada da eletromobilidade e sua cadeia energética, o pesquisador aponta que painéis fotovoltaicos (solares) e as turbinas eólicas driblam o transporte marítimo por pontos de estrangulamento, descentralizando a geração e a comercialização. “A energia elétrica é gerada localmente e, cada vez mais, em pontos de menores dimensões”, afirma Dia. “A redução da dependência do petróleo, frequentemente enquadrada como uma política climática, é muito mais do que isso. É vital para a segurança energética e a soberania nacional, na medida em que a diminuição do seu consumo aumenta a resiliência das nações a choques e reduz seu subjugo ao imperialismo”, complementa.


Brasil: fontes limpas

No Brasil, 90% da energia elétrica advém de fontes limpas, o que coloca o país em uma posição privilegiada para a descarbonização do setor de transportes, reduzindo sua dependência do petróleo. E mesmo que, aparentemente, isso ocorra de forma involuntária, o consumidor brasileiro parece ter se dado conta dos benefícios da virada da eletromobilidade, tanto é que o Dolphin Mini fechou o mês de fevereiro como o modelo mais vendido do país, no varejo – feito inédito para um modelo 100% elétrico, no país. “O Brasil tem uma estrutura pronta para o desenvolvimento do mercado de EVs e, é cada vez mais evidente, que mobilidade elétrica não é sobre veículos elétricos, mas sobre infraestrutura, dados e tecnologia e precisamos de sinergia para termos solidez nessa cadeia”, sublinha o presidente-executivo (CEO) e fundador Zletric, uma das maiores empresas nacionais de recarga, e diretor-conselheiro da ABVE, Pedro Schaan.

A adoção acelerada de EVs, no Brasil, pode gerar uma economia de até US$ 250 bilhões (o equivalente a R$ 1,35 trilhão) em custos de importação de combustíveis fósseis, até 2050, isso sem falar na redução dos danos climáticos nesse mesmo período. “Os EVs são a parte visível dessa cadeia. A parte invisível está na infraestrutura, na promoção de energia”, acrescenta Schaan. No mesmo sentido, a transição acelerada para veículos elétricos evitaria o consumo de 7,7 bilhões de barris de petróleo equivalente (BOE) em combustíveis.

“A continuidade das vendas de veículos com motor de combustão interna gera custos econômicos, de saúde e climáticos a longo prazo. O Brasil está bem posicionado para a transição energética do setor de transportes, com uma rede elétrica de baixo carbono, abundantes recursos minerais para baterias e uma forte indústria nacional”, avalia o analista do laboratório de ideias britânico Carbon Tracker e autor do relatório “Leagfrog to Electric”, Ben Scott. “O desenvolvimento dos motores flexíveis, que usam combustível vegetal, reduziu as importações de petróleo, mas não eliminou a dependência de combustíveis fósseis. Neste ponto, a eletrificação é o melhor caminho para a segurança energética a longo prazo”, conclui Scott.