Por Guilherme Eduardo Morais Ferreira, da Universidade Estadual de Londrina, 4º colocado no Prêmio Estudantes 2025

Antonio Marcos Laurentino (46) levanta cedo. É formado em Educação Física pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e pós-graduado em Fisiologia do Esporte, mas atualmente trabalha como motorista por aplicativo. “Faço de 8 a 12 horas por dia, depende da procura dos passageiros pelo serviço”, diz. Ele é mais um dos milhões de brasileiros que possuem carro. De acordo com a Secretaria Nacional do Trânsito (Senatran), o País já dispõe de um automóvel a cada quatro habitantes. Em números totais, o Ministério dos Transportes contabilizou 123.974.520 veículos automotores em dezembro de 2024.
Em março do mesmo ano, Laurentino passou a integrar uma outra estatística que tem ganhado força: motoristas que trocaram um veículo a combustão por um elétrico. Ele comprou o modelo Ora 03, da Great Wall Motors (GWM). “Simplesmente troquei o que eu pagava de combustível pelo financiamento. Hoje, pago também a energia elétrica de casa e acabo ficando ‘elas por elas’. A diferença é que, ao final de cinco anos, terei um carro mais novo”, explica. A Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) analisa que o mercado fechou o mês de setembro de 2025 com 21.515 carros elétricos e híbridos comercializados, o que significa um aumento de 62% em relação ao mesmo período do ano passado. Mas, frente à necessidade da preservação ambiental, seria esse o futuro do setor automobilístico?
Meio ambiente sobre quatro rodas
Segundo dados de 2024 do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), os transportes são grandes fontes de carbono no contexto urbano. A plataforma Climate Watch mostra, por exemplo, que o Brasil ocupa o quinto lugar (3%) no ranking mundial das nações que mais emitem, ficando atrás dos Estados Unidos (21%), China (11%), Índia (4%) e Rússia (3%).
Além disso, há de se atentar com a poluição do ar, já que a combustão incompleta de quaisquer combustível de veículos libera partículas que prejudicam a saúde das pessoas. Conforme Thiago Nogueira, professor do departamento de saúde ambiental da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), entre as possíveis enfermidades estão asma, tosse, bronquite, rinite, alergias, cânceres e doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer. “Tenho rinite, por isso, evito andar de janela aberta. Sempre de janela fechada e ar condicionado ligado para o meu conforto. Não ouço barulho externo que atrapalha, nem sinto cheiro dos escapamentos”, contextualiza o educador físico.
Por outro lado, o estudo Caminhos da Descarbonização: a pegada de carbono no ciclo de vida do veículo, da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), revela que os veículos brasileiros têm a menor pegada de carbono do mundo. Para Igor Calvet, presidente da Anfavea, a utilização dos biocombustíveis é eficaz para uma estratégia imediata de descarbonização no país enquanto a eletrificação cresce.
Em relação aos carros elétricos, o motorista Antonio Marcos detalha os prós e contras do modelo conforme as experiências que teve: “as vantagens são tecnologia, segurança e economia no abastecimento, já que não vou a um posto de combustíveis, mas tem todos os outros gastos. Hoje em dia, é ideal para quem anda muito dentro da cidade. Para quem viaja bastante, pega estrada, não acho interessante, porque os pontos de carregamento ainda são poucos. Faltam leis que obriguem ter infraestrutura para abrigar esses carros”.
Transporte coletivo
Outro ponto que deve ser observado é o transporte coletivo, em especial o ônibus. Uma pesquisa divulgada pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT) em agosto de 2024 mostra que o uso do famoso “busão” caiu em torno de 14% de 2017 até o ano do estudo. No entanto, esse meio de locomoção ainda é a única alternativa para 52,7% dos entrevistados.
Em Londrina, a frota de ônibus corresponde à 2.163, de acordo com levantamento do Ministério dos Transportes. Recentemente, em agosto, o município testou, durante 20 dias, coletivos elétricos em seis linhas de trajetos. Os modelos foram produzidos na China. “O objetivo era conhecer os prós e contras. A Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) segue estudando outros modelos, como os ônibus movidos a biometano. Os estudos analisam também as questões financeiras para indicar o melhor ou os melhores modelos para a nossa realidade”, coloca Rafael Sambatti, diretor de trânsito da CMTU. Enquanto isso, cerca de quatro empresas de transporte coletivo público seguem rodando na cidade (intra e intermunicipal), com passagens nos valores de R$ 5,75, R$ 5,95 e próximo a R$10.
O carro desejado no mundo necessário
Para a pesquisadora Helen Sousa, do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), uma maneira de recalcular a rota para a preservação do meio ambiente é reduzir a dependência de veículos particulares. “Precisamos pensar na mobilidade urbana como um todo, priorizando alternativas de transporte menos poluentes e que coloquem a pessoa em primeiro lugar”, defende em entrevista ao UOL.
Em artigo do Nexo Jornal, Felipe Barcellos e Silva e Nicole Dejarmes, também do Iema, complementam na tentativa de reduzir emissões poluentes: “melhorar os sistemas existentes, adotando tecnologias mais limpas e eficientes como veículos elétricos e infraestruturas para aumentar a fluidez do transporte público”.
Diante desse contexto, o motorista por aplicativo Antonio Laurentino já sabe como escolher o carro ideal: “é aquele que te atende. Cada um vai precisar de um modelo específico. Alguém com a família grande, com a família pequena, alguém que viaja, alguém que não viaja e por aí vai”.










