Com queda de 5,5% no primeiro bimestre, carro a combustão segue em declínio.
Os modelos eletrificados – que correspondem à soma de híbridos leves (sem recarga externa), híbridos plug-in e EVs puros – e micro-híbridos seguem crescendo no Brasil e, em fevereiro, registraram alta de 73% sobre o mesmo mês de 2025, chegando a uma participação acumulada de mais de 16%, no primeiro bimestre deste ano. No geral, as vendas nacionais subiram 8,8%, no mês passado, ampliando os ganhos de janeiro, puxadas pela virada da eletromobilidade. A transição energética ganha cada vez mais tração no país, enquanto os modelos equipados com motor a combustão interna continuam perdendo espaço, com uma retração de 5,5%. Na prática, se descontarmos os números dos modelos de eletrificados e dos micro-híbridos de todos emplacamentos de 2026, o ano teria começado com queda de 14,8%. “O desempenho dos eletrificados reflete o amadurecimento do ecossistema da eletromobilidade no Brasil, o que se deve não só à ampliação do portfólio de produtos, mas aos avanços na infraestrutura de recarga e à maior familiaridade do consumidor com as novas tecnologias”, avalia o presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) e diretor de relações Institucionais Great Wall Motor (GWM), Ricardo Bastos.
O avanço dos veículos de novas energias (NEVs) também se apoia no crescimento de mais de 40% dos eletropostos, no país. “O Brasil tem, hoje, 21.061 pontos públicos e semipúblicos de recarga e, só em 2025, os pontos de recarga rápida (DC) cresceram 167% e já representam 31% da rede”, destaca o avalia o sócio-fundador da Tupi Mobilidade e diretor da ABVE, Davi Bertoncello. “Se mantivermos esse ritmo, o país pode não apenas acompanhar, mas liderar a eletrificação entre os mercados emergentes”, acrescenta Bertoncello.
Pela primeira vez, um EV fechou o mês entre os dez carros de passeio mais vendidos do país. Em fevereiro, o Dophin Mini, da BYD, não foi só um dos líderes nacionais, com 4.874 unidades licenciadas, como o modelo mais vendido no varejo – quando se exclui as vendas diretas para empresas e frotistas. A marca chinesa, líder mundial no segmento de novas energias, também comemora o melhor resultado comercial deste primeiro bimestre, seja pela alta de 56% nas vendas (de 13.606 para 21.229 unidades), seja pelo aumento de sua participação no mercado brasileiro, que saltou de 4% para 6,2%. Pode parecer pouco, mas estes 2,2 pontos percentuais foram suficientes para a BYD pular da nona para a quinta posição na tabela, ultrapassando Toyota, Renault, Honda e Jeep – por for falar na Toyota, suas comercializações caíram 27% só nos dois primeiros meses deste ano, em relação a 2025.
Haval H6 supera Renegade e HR-V
Outras marcas chinesas sobressaem, neste início de 2026: as vendas da Great Wall (GWM) cresceram 102% (de 4.599 para 9.313 unidades), ao mesmo tempo em que as da Omoda Jaecoo, absolutamente desconhecida do consumidor brasileiro há até bem pouco tempo, já superam as da Peugeot – no mês passado, o Omoda 5 vendeu mais do que o Boreal, da Renault. A Geely, que já aparece à frente da Mercedes-Benz, só não ultrapassou a BMW porque o primeiro lote de seu EX2 foi praticamente esgotado, em janeiro, de modo que, no mês passado, restavam pouquíssimas unidades na rede – tudo indica que ele irá se consolidar à frente de Citroën C3 e Peugeot 208, entre os compactos. Já entre os SUVs, categoria que responde por quase 60% dos emplacamentos nacionais, destaque para o Haval H6, híbrido plug-in da GWM que registrou alta comercial de 23% em relação a janeiro – com 3.237 unidades, foi o nono modelo mais vendido da classe, em fevereiro.
Mais do que um crescimento bem superior ao do mercado, como um todo, o modelo deixou Jeep Renegade, Honda HR-V e Toyota Corolla Cross para trás, partindo agora para cima do Nissan Kicks – que deve ser superado já neste mês – e do Pulse, da Fiat. Apesar de não figurar entre os líderes do segmento, longe disso, o BYD Yuan também sobressai, neste início de ano, com 1.070 unidades licenciadas nos dois primeiros meses e um crescimento de 195%, sobre o mesmo intervalo de 2025. O destaque negativo entre os e-SUVs foi o Leapmotor C10 que, apesar dos atributos, dá pinta de que não vai emplacar no Brasil – vamos aguardar sua dinâmica, no primeiro semestre, para termos uma análise mais assertiva.
No final de fevereiro, os atuais e futuros proprietários de modelos eletrificados ganharam mais segurança jurídica com o sancionamento, em São Paulo, da Lei nº 18.403, que regulamenta o direito à instalação de carregadores em seus domicílios, seja em condomínios ou residências. “É um avanço importante e que complementa o marco regulatório do setor”, afirma o presidente da ABVE, Ricardo Bastos. A nova lei, que deve servir de base para todos os Estados da federação, assegura ao condômino o direito de instalar, assumindo todos os custos, tomada individual em sua vaga de garagem, desde que respeitadas as normas técnicas e de segurança vigentes. “Previsibilidade é essencial e impulsiona a virada da eletromobilidade”, sublinha Bastos.
Analisando a conjuntura do primeiro bimestre e projetando os próximos meses, até os negacionaistas sabem que a Matemática é uma ciência exata e os números não mentem, de modo que, hoje, o sujeito precisa ser muito conservador ou muito burro, mesmo, para empatar seu suado dinheirinho num modelo a combustão interna, que remete ao século 19. Mais do que uma opção infinitamente mais econômica, para o uso diário, os modelos eletrificados chineses comprovaram aquilo que, pessoalmente, venho defendendo há três décadas: que os carros ultrapassados que as antigas montadoras ocidentais sempre nos empurraram, goela abaixo, não custam caríssimo por conta dos impostos, mas, sim, por conta dos preços extorsivos e das margens de lucro despóticas que elas sempre praticaram. Vê-las capitular, depois de tanto nos enganarem, dá até uma sensação de justiçamento.










