Enquanto o presidente norte-americano Donald Trump aumenta as pressões sobre Venezuela e Groenlândia, agências prevêem redução na demanda rodoviária de petróleo e pico do consumo em 2027; aumento da participação global dos híbridos plug-in e EVs puros, como os produzidos pela Tesla, puxam a virada da eletromobilidade. – CRÉDITO – Imagem gerada por IA, com licença para uso editorial

A pressão dos Estados Unidos sobre a Venezuela e a Dinamarca (leia-se Groenlândia) não deixam dúvidas sobre a importância do petróleo na matriz energética das grandes potências, mas o ano de 2026 marcará um ponto de inflexão, consolidando a virada da eletromobilidade como uma tendência mundial e apontando para uma queda na demanda por combustíveis fósseis. “No final de 2025, o centro de gravidade da eletrificação mudou e os mercados emergentes que, até então, corriam por fora, e agora passam a liderar a transição energética”, destaca o analista do instituto britânico de políticas públicas Ember, Euan Graham. Há cinco anos, os EVs respondiam por mais de 10% das vendas de veículos novos em apenas quatro países, número que cresceu para 40 nações no último mês de dezembro. “Este crescimento se dá mais rapidamente fora da Europa, em países que enxergam as vantagens dos modelos de novas energias (NEVs) cada vez com maior clareza, moldando o futuro do setor com uma assimilação acelerada dos ganhos em economia, das questões ambientais e até mesmo da redução das importações de combustíveis fósseis”, acrescenta Graham.

Apesar de os números globais ainda não estarem consolidados, cerca de 22 milhões de híbridos plug-in e EVs (modelos 100% elétricos) foram comercializados, no ano passado, nos 60 principais mercados do mundo – países que respondem por 97% de todas as comercializações. Note que, mesmo excluindo os híbridos convencionais e os micro-híbridos, os NEVs já abocanham mais de 25% do bolo. Os modelos eletrificados são, por óbvio, os maiores consumidores de eletricidade no transporte e estima-se que, em 2030, sua demanda energética será superior a 60% do disponibilizado só para o setor rodoviário.

Em termos gerais, nos próximos cinco anos, a participação de híbridos plug-in e EVs no consumo nacional de eletricidade saltará de 1,2% para 3,6%, na China, de 1% para 4,5%, na União Europeia (UE), de 0,5% para 2,2%, nos Estados Unidos, e de 0,1% para 1%, na América Latina. No Balanço Energético Nacional (BEN) 2025, primeiro a contabilizar oficialmente o consumo de eletricidade no setor de transporte rodoviário brasileiro, o Ministério de Minas e Energia (MME) revelou um aumento de 20 vezes em relação a 2020, para 309 GWh – aqui, vale sublinhar que os modelos eletrificados, que saltaram de 1,9 mil unidades para 215 mil unidades no período, responderam por 90% desse consumo.

“A crescente adoção de veículos de novas energias reduz a demanda por petróleo. Apenas para se ter uma ideia, o consumo de combustíveis fósseis substituídos aumentou 30% em 2024, para mais de 1,3 milhão de barris por dia, o que equivale a toda a demanda de petróleo do setor de transportes do Japão”, detalha a mestre em Engenharia Ambiental, doutora pelo Instituto Real de Tecnologia (KTH) da Suécia e pela Universidade Politécnica de Milão, Laura Cozzi, diretora de sustentabilidade da Agência Internacional de Energia (IEA). “Até o final desta década, os híbridos plug-in e EVs substituirão mais de 5 milhões de barris por dia, sendo que a frota chinesa representará metade do petróleo substituído”, acrescenta.

Pico em 2027

Apesar da consolidação da virada da eletromobilidade, a demanda rodoviária por combustíveis fósseis seguirá crescendo por, pelo menos, mais dois anos, atingindo o pico de 49 milhões de barris por dia (bpd) em 2027. “A partir daí a demanda estrutural irá cair, descendo a 35 milhões (-28,5%) de barris por dia em 2040”, projeta o chefe de pesquisa de petróleo e combustíveis renováveis da BloombergNEF, David Doherty. Os veículos elétricos leves, híbridos plug-in e EVs, seguirão responsáveis pela maior parte da substituição do petróleo, representando cerca de 77% até 2030. “À medida que os avanços tecnológicos e a expansão da infraestrutura de recarga impulsionam a transição do transporte pesado, com caminhões e ônibus elétricos substituindo juntos quase um milhão de veículos, os Países Exportadores de Petróleo (OPEP) vão elevar o preço do óleo cru, acelerando a eletrificação deste segmento”, pondera Doherty.

Para ele, a demanda por gasolina e diesel para o transporte rodoviário provavelmente já atingiu seu limite máximo nos EUA, na Europa e China, enquanto em outros grandes países consumidores, como o Brasil e a Índia, ela começa a declinar mais tarde, durante a década de 2030 – lembrando que o consumo total de petróleo, somando todos os setores de energia e não apenas o rodoviário, é de 100 milhões de barris diários. Se isso é verdade, por que o Donald Trump e os norte-americanos vão na contramão dos apontamentos da IEA – afinal, os EUA bancam 14% do orçamento da Agência Internacional de Energia?

“A forma como o IEA vê o mundo não é a mesma forma como a administração Trump enxerga a realidade, simples assim”, comenta o pesquisador associado do Instituto Real de Assuntos Internacionais, a Chatham House britânica, Michael Bradshaw. “Mas há um motivo para este descolamento: os Estados Unidos são o maior produtor mundial de petróleo e gás, e o governo Trump vê o aumento da extração e dos negócios neste setor como tábua de salvação para a economia norte-americana. Mas os números da IEA, que balizam o planejamento de países e companhias, mostram uma desaceleração na demanda. E isso atrapalha as ambições dos EUA”, explica o especialista.

Maior consumidor

Os Estados Unidos são o maior consumidor de petróleo do mundo, com 21 milhões de barris por dia, contra 16 milhões da China e 11 milhões da União Europeia. Para além disso, Trump se apoia nas previsões da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e da gigante petrolífera norte-americana Exxon Mobil – sétima maior empresa em receita dos EUA e 13ª maior do mundo. “Elas preveem um crescimento contínuo do petróleo nas próximas décadas, embora a um ritmo mais lento do que antes”, pondera Brandshaw. Números da IEA confirmam o evidente: não há falta de oferta, no momento, e a demanda global tem crescido mais lentamente em 2024 e 2025, do que em 2023. “Na verdade, os produtores estão extraindo mais petróleo bruto do que o mundo está realmente consumindo”, complementa.

A Agência Internacional de Energia afirma, categoricamente, que a transição para a energia limpa está acontecendo no mundo todo e é imparável. “As petrolíferas precisarão investir cada vez mais pesadamente na extração de óleo e gás, para compensar o declínio dos campos existentes. Em 2026, é possível que energias renováveis ultrapassem o carvão mineral como principal fonte na geração de eletricidade, então, não há como nos alinharmos à visão de futuro de Trump”, afirma o economista Fatih Birol, diretor executivo da IEA.

De qualquer forma, e para evitar entrar em brigas ou guerras, a agência divulgou, em setembro do ano passado, um relatório em que admite um aumento na demanda mundial por petróleo para 113 milhões de barris diários, em 2050 – depois, o declínio seria irreversível. “Acho que este mais recente relatório da Agência Internacional de Energia reflete mais ceticismo do que pressão política”, comenta o analista de energia do Eurasia Group, Gregory Brew. “De qualquer forma, a conjuntura cria uma falsa sensação de confiança para investidores, encorajando investidores a apostarem numa perspectiva muito frágil”, avalia Brew.

É esperar para ver…