Plano, que inclui o Brasil, tentar tirar empresa da corda bamba;

CRÉDITO – FOTOS geradas por IA com licença para uso editorial LEGENDA – Na corda bamba, a Renault apresentou seu plano estratégico ‘futuREady’ prometendo recuperar a posição de outrora, abocanhar fatias maiores nos mercados europeu e internacional, melhorar as contas e aumentar a lucratividade do negócio: até 2030, serão 36 lançamentos com foco na eletrificação e a promessa de que 50% do portfólio brasileiro contemplará veículos de novas energias até lá; hoje, a companhia tem uma capitalização de mercado de US$ 9,5 bilhões (o equivalente a R$ 51,5 bilhões, menos do que vale a Localiza, empresa brasileira de locação de veículos), acumulando perdas alarmantes de 80%, desde outubro de 2007
A Renault terá 50% de sua linha eletrificada, em quatro anos, e isso inclui o Brasil. A marca francesa, que anda na corda bamba, revelou seu plano estratégico para 2026-2030 confirmando que deixará de oferecer modelos equipados com motores a combustão interna ao final deste quadriênio, no mercado europeu, onde sua oferta será de híbridos e EVs. Já nos demais países onde atua, metade da gama será de veículos de novas energias. “Com nosso novo plano estratégico, batizado de ‘futuREady’, vamos nos tornar o principal fabricante europeu em todo o mundo, alavancando a virada da eletromobilidade, desenvolvendo tecnologias para um portfólio internacional e obtendo maior eficiência industrial por meio de alianças com a Geely e a Ford, além do eixo histórico que construímos com a Nissan e a Mitsubishi”, anuncia o presidente-executivo (CEO) da companhia, François Provost. “O sucesso será uma conquista coletiva, como temos feito há quase 130 anos, e refiro-me, antes de mais nada, aos nossos colaboradores e também aos concessionários, aos parceiros e aos fornecedores. Demonstraremos que uma montadora europeia pode não só se manter ao longo do tempo, mas se tornar uma referência global”, completa.
Os automóveis seguem como pilar central do novo plano e, de agora até 2030, o grupo lançará 36 novos modelos, sendo 22 para a Europa e 14 para mercados internacionais, com “forte ênfase na eletrificação”. Na Europa, 16 destes 22 novos produtos serão totalmente elétricos. “Nossa meta é alcançar vendas anuais de dois milhões de unidades, até 2030, sendo que metade deste volume será comercializado no Brasil, América Latina, África, Oriente Médio e Ásia. No Velho Continente, os modelos eletrificados responderão por 100% das comercializações, enquanto, nos demais mercados globais, híbridos e EVs terão participação de 50% no total”, detalha Provost.
Como o leitor adulto e mais bem informado sabe, no Brasil, a Renault coloca sua logomarca em modelos originários da romena Dacia, que continuará mantendo sua filosofia de mobilidade acessível, mas com uma gama cada vez mais eletrificada. “Até 2030, teremos quatro novos EVs e a eletrificação de 2/3 de toda da linha”, garante o executivo – na Europa, a Dacia foca o segmento C com veículos 4×4 e motores a combustão interna movidos a gás liquefeito de petróleo (GLP) que, no Brasil, é o nosso conhecidíssimo gás de cozinha. O avanço da Dacia, no além-mar, cria uma boa perspectiva para o mercado brasileiro, onde o Boreal, que nada mais é do que uma versão levemente remodelada e rebatizada do Bigster europeu, nasceu morto.
INTERTÍTULO – Nada indica requalificação
Na Europa, os novos EVs da Renault usarão a plataforma RGEV 2.0, com arquitetura de 800 volts, carregamento ultrarrápido e autonomia de até 750 quilômetros, sem necessidade de recarga das baterias. Lá, haverá versões com tração integral e extensor de autonomia (EREV), capaz de aumentar o alcance total para 1.400 km, mas nada disso deve chegar por aqui. Para o Brasil, a perua Striker, que será lançada no final deste ano, é a única possibilidade concreta, já que a Renault trocou sua linha francesa pela romena há algum tempo e nada faz crer que uma requalificação de sua linha nacional esteja prevista. “Projetado na Índia, um SUV compacto derivado do Bridger Concept e montado sobre a nova plataforma RGMP – que remete à base RMP, do Kardian brasileiro – será lançado internacionalmente, no segundo semestre de 2027, com motores a combustão interna”, pontua Provost.
“Esta plataforma foi concebida para veículos com menos de quatro metros de comprimento, diferentemente da base CMFB original – do Boreal brasileiro – que, é verdade, deu origem a modelos menores, como o Clio europeu. Buscamos proporções equilibradas, sem recorrer a soluções improvisadas, como encurtar o porta-malas, e reestruturamos a plataforma para a eletrificação, rebatizando-a. Então, teremos a base RGMP para o Bridger, permitindo a futura adoção de um trem de força híbrido, sem comprometer o espaço interno”, explica o diretor de engenharia da Renault indiana, Dr. Vikraman V – o nome é este mesmo e é assim que se escreve, por mais que o leitor possa estranhar.
Aqui, o cheirinho de gasolina coaduna, perfeitamente, com a oferta da Renault nacional e não precisa ser adivinho para projetar que muito possivelmente, no início de 2028 (portanto daqui dois anos), uma espécie de “Kwidão” será apresentado como a quintessência dos SUVs, por valores na casa dos R$ 120 mil – quiçá dos R$ 150 mil, até lá – trazendo sob o capô o mesmíssimo trem de força que, há três meses, fez do Boreal um legítimo natimorto. Também não é preciso ter bola de cristal para saber que os marqueteiros contratados pela marca terão que reinventar a roda para convencer o tupiniquim a entregar seu suado dinheirinho para adquirir, no futuro, um produto que, hoje, já está ultrapassado – mas o brasileiro é capaz de cair em qualquer golpe e não devemos subestimar sua burrice.
Por fim, a Renault também visa fortalecer sua competitividade em termos fabris, reduzindo os custos atuais de produção em até 20%, encurtando ciclos de desenvolvimento de novos modelos para dois anos e utilizando cada vez mais inteligência artificial (IA) e seu metaverso industrial para monitorar a dinâmica das linhas, em tempo real. Já no capítulo finanças, a companhia almeja uma margem operacional entre 5% e 7% e um fluxo livre anual de caixa de 1,5 bilhão de euros (R$ 6 bilhões) “ou mais”, o que, nas palavras do seu próprio CEO, François Provost, “precisa ser sustentado pelo crescimento nos polos de produção da América do Sul, Índia e Coreia do Sul”. Em resumo, o sucesso do “futureREady” dependerá da disposição do consumidor terceiro-mundista de bancar o primo rico europeu.
A Renault ocupa, hoje, a 39ª posição entre as maiores montadoras do mundo, com uma capitalização de mercado de US$ 9,5 bilhões (o equivalente a R$ 51,5 bilhões, menos do que vale a Localiza, empresa brasileira de locação de veículos). Só nos últimos 12 meses, o valor da marca caiu 33%, perda que chega a alarmantes 80%, desde outubro de 2007. O rendimento médio de dividendos de suas ações, nos últimos cinco anos, é de 2,5% e a remuneração de quase 8% (antes da tributação) para a última terça-feira revela uma equação matemática desesperada (para Vorcaro nenhum por defeito), na tentativa de manter a “fidelidade” dos investidores.










