Sistemas automotivos podem gerar até R$ 183,8 bilhões em receita para montadoras e fornecedores, mas tempos de reação do motorista aumentam e perda de atenção chega a 50%

O assistente de voz Alexa está disponível para muito modelos de várias marcas: de acordo com o relatório anual da publicação “Voicebot.ai”, 58% dos consumidores norte-americanos, 82% dos britânicos e 89% dos alemães consideram os assistentes de voz um fator importante na decisão de compra de um zero-quilômetro; por outro lado, ao interagir com assistentes de voz como Siri e o próprio Alexa, os tempos de reação aumentam 0,7 segundo e risco ao volante cresce
À medida que os botões físicos desaparecem dos consoles dos automóveis, substituídos por telas sensíveis ao toque, as interfaces de voz estão evoluindo de ferramentas básicas de comando para algo mais complexo. Isso não acontece, pura e simplesmente, por “bondade” das montadoras, mas porque a mudança representa uma oportunidade de negócio, sinalizando a reformulação de como as marcas monetizam a experiência do usuário. O banco do motorista se transforma em ponto de vendas, mas o que parece ser apenas conveniente também traz riscos. Isso porque, quando usam este tipo de interface enquanto dirigem, os condutores deixam de atentar para até 50% daquilo que se passa ao seu redor, no trânsito. “É o que chamamos de ‘cegueira por desatenção’, fazendo com que os motoristas percam saídas, ignorem semáforos vermelhos e placas de pare”, explica o psicólogo cognitivo neozelandês, professor e pesquisador de Psicologia da Engenharia e desenvolvimento humano, Samuel G. Charlton. O que pode parecer alarmismo é, na verdade, um fato, tanto que o Conselho norte-americano de Segurança Nacional (NSC) reporta em seu relatório, desde 2020, que dispositivos de comandos de voz “são inseguros por distraírem os condutores com tarefas interativas”.
Na outra ponta do tema, a mais recente pesquisa da fornecedora de tecnologia SoundHound AI, feita nos Estados Unidos, estima que as transações feitas por meio de voz e dos sistemas de infoentretenimento automotivo podem gerar até US$ 35 bilhões (o equivalente a R$ 183,8 bilhões), nos próximos anos. “Os consumidores demonstram crescente disposição em usar assistentes de voz para atividades comerciais enquanto dirigem e os controles habilitados com IA trazem novas perspectivas”, avalia o analista da consultoria SBD Automotive, com escritórios nos EUA e na Inglaterra, Varun Murthy. O problema é que a tecnologia pode ter atingido um ponto de inflexão.
As pesquisadoras Alexandra Loew e Ina Koniakowsky, ambas doutorandas na BMW alemã, apontam que, ao interagir com assistentes de voz como Siri e Alexa, os tempos de reação aumentam 0,7 segundo. “No teste OSPAN, em que os participantes – 40 pessoas, homens e mulheres com experiência média de 20 anos de habilitação – de nossa pesquisa memorizavam uma sequência de letras enquanto resolviam problemas matemáticos simples e simultaneamente, para avaliar sua capacidade de gerenciar recursos cognitivos e manter informações sob distração, as reações foram 0,8 s mais lentas”, pontua Koniakowsky. “Concluímos que os assistentes baseados em voz podem, sim, comprometer a segurança”, afirma Loew.
Aqui, é importante “desenhar” para o leitor: um automóvel a 65 km/h percorre 18 metros por segundo e necessita, em média, de 35 metros para parar completamente. O atraso de 0,7 s no tempo de reação de seu condutor, fará com que ele percorra 15 m a mais, antes de iniciar a frenagem. Na prática, estes metros adicionais, em que se pode enfileirar três picapes Ranger, da Ford, são a diferença entre uma parada segura (que valha o susto) e um acidente.
De volta aos EUA, mais especificamente ao Vale do Silício, a empresa de reconhecimento por voz SoundHound AI aponta que 73% dos motoristas norte-americanos estão interessados em acessar comércio por voz enquanto dirigem, sendo que 76% gostariam de usá-lo para pedir comida, 73% para agendar serviços de manutenção, 71% para reservas em estacionamentos, 59% para entretenimento e 58% para compras no varejo. “Os benefícios dos comandos de voz são um ‘ganha-ganha’ para usuários e fabricantes”, assegura a vice-presidente de marketing da Kardome, Laura Tate. “Em 2017, a Ford integrou a Alexa a seus veículos; em 2018, a Amazon lançou seu Echo Auto; em 2020, a Lamborghini passou a permitir a configuração até mesmo o modo de condução pelo assistente Alexa e, em 2021, a General Motors integrou o Google Assistente e o Google Maps”, enumera Laura.
Vê-se um inegável engajamento das marcas, mas o leitor adulto, aquele que não acredita em fadas, sabe que o tal “ganha-ganha” pode existir no universo do marketing, mas não existe no plano da realidade – porque para alguém lograr, é preciso que outro tenha prejuízo.
“Cérebro não é multitarefas”
“Para além das projeções de receita, os fabricantes precisam encontrar o equilíbrio entre conveniência e segurança, porque comandos de voz já podem ativar ou desativar funções de controle. A questão mais importante é traçarmos a linha divisória para os comandos de voz e definirmos até que ponto eles podem interferir nas funcionalidades do veículo”, pondera Varun Murthy, da SBD Automotive. Talvez o leitor não tenha se dado conta, mas o reconhecimento de voz, em si, é uma questão técnica superada pelo avanço tecnológico e, agora, é sua consistência em condições reais de direção que preocupa. De acordo com o relatório anual da publicação “Voicebot.ai”, 58% dos consumidores norte-americanos, 82% dos britânicos e 89% dos alemães consideram os assistentes de voz um fator importante na decisão de compra de um zero-quilômetro.
“Os condutores passam cada vez mais tempo ao volante e otimizar a experiência dentro do carro, garantindo mais tempo livre ao final de um longo dia de trabalho, traz uma oportunidade de monetização por IA para as montadoras. Os anúncios de voz são um bom exemplo: se estiver com pouco combustível, o assistente pode sugerir um ponto para reabastecimento”, detalha o diretor de receitas (CRO) da SoundHound AI, Zubin Irani. “O futuro da IA de voz reside em momentos monetizáveis, oportunidades de compra e comércio por voz não intrusivo, aquele que acontece naturalmente na conversa e se integra à jornada do usuário”, acrescenta.
Há, portanto, uma bifurcação: de um lado, a expectativa de ganho das montadoras e fornecedores; de outro, a segurança de quem, ao se envolver em um acidente, assumirá as responsabilidades penal e civil sozinho – fabricantes e desenvolvedores sairão ilesos e estarão a milhares de quilômetros de distância, apenas contam o dinheiro.
“O cérebro humano não é capaz de realizar multitarefas. Ao invés de fazer duas, três coisas ao mesmo tempo, o cérebro alterna constantemente sua atenção entre as tarefas, nunca dando foco total, absoluto, a nenhuma delas. A multitarefa é um mito, exaustivamente desmentido pela neurociência”, alerta a professora e diretora do Laboratório de Comunicação e Psicofisiologia (CAPLab) da Universidade Estadual de Ohio, Zheng Joyce Wang. Ele lembra que uma simples conversa ao celular diminui a atividade em uma área do cérebro associada à direção em 37% e que o mero uso do celular ao volante (inclusive no viva-voz) determina tempos de reação mais lentos do que motoristas com uma concentração de 0,08 de álcool no sangue – no Brasil, valores acima de 0,05 mg/L de ar alveolar já configuram infração gravíssima.
Como se vê, conveniência e perigo rodam juntos.










