Foco serão “consumidores que querem tecnologia avançada, pelo menor preço”; primeiro carro chega em 2024

Imagem da fábrica da Leapmotor em Jinhua, na Província chinesa de Zhejiang; Stellantis vai investir quase R$ 8 bilhões na aquisição de 20% da montadora asiática, para uso exclusivo de suas plataformas de EVs por 14 marcas – no detalhe, a diretora financeira (FCO) da companhia ocidental, Natalie Knight, que confirmou o lançamento de uma nova marca, a 15ª do grupo, dedicada a EVs “populares”, no final de 2024
Foto: Leapmotor/Stellantis/Divulgação

A Stellantis terá uma nova marca, a 15ª de seu portfólio e a primeira dedicada exclusivamente a EVs “populares”. A nova marca foi confirmada, na manhã de hoje, pela diretora financeira (FCO) da companhia, Natalie Knight, e o lançamento de seu primeiro modelo está agendado para o final de 2024. “Nosso foco são consumidores que querem a tecnologia mais avançada, pelo menor preço”, disse a executiva aos acionistas da companhia, durante a teleconferência em que apresentou o balanço financeiro do terceiro trimestre deste ano. Inicialmente, os novos EVs serão ofertados no mercado europeu, mas o plano é estender esta oferta, rapidamente, para todos os países em que o grupo está presente. Desde a fusão da Fiat Chrysler Automobiles (FCA) com o Grupo Peugeot-Citroën (PSA), há quase três anos, a Stellantis se tornou a terceira maior corporação automotiva do mundo em vendas. A gigante que uniu norte-americanos, franceses e italianos sob a mesma bandeira subiu no “pódio” do setor neste ano, superando a Hyundai, mas apesar do volume de produção na casa das seis milhões de unidades anuais e de estar presente em, praticamente, todos os mercados do planeta, seu nome não aparece nem entre as cincos maiores empresas globais, quando recortamos apenas os veículos elétricos (EVs).

Diante deste cenário e da obrigação de emissão zero que, a partir de 2035, sepultará os motores a combustão na União Europeia, a Stellantis viu na parceria com a chinesa Leapmotor a solução mais rápida e efetiva para acelerar sua participação na virada da eletromobilidade. Assim, a partir de um programa de investimentos de 1,5 bilhões de euros (o equivalente a quase R$ 8 bilhões), a gigante ocidental confirmou a aquisição de 20% da startup oriental para uso exclusivo de suas plataformas. Em outras palavras e para além da nova marca de elétricos, seu próximo Jeep será um legítimo EV chinês. “Nossa meta é alcançarmos um volume comercial de 500 mil unidades já em 2030, fora da China, enquanto a Leapmotor, com nossa nova marca”, projeta Natalie – já no mercado chinês, a Leapmotor espera atingir um volume de um milhão de unidades.

“Vínhamos negociando acordos para licenciamento de nossa tecnologia com dois grupos europeus, que manifestaram interesse em usar nossa plataforma, nominalmente a base ‘Four Cleaver Clover’ que apresentamos em agosto deste ano, já com funções inteligentes integradas para condução autônoma”, detalhou o presidente-executivo (CEO) da Leapmotor, Zhu Jiangming. A startup e a Stellantis formarão uma joint venture global para produção e venda dos produtos da Leapmotor pelas 14 marcas da gigante ocidental (Fiat, Jeep, Peugeot, Citroën e RAM, dentre outras), que deterá 51% do controle acionário desta nova parceria. Na prática, a “redução de riscos” que alguns políticos da União Europeia defendem, na forma de medidas protecionistas e do aumento da carga tributária para EVs chineses, é um tiro que sai pela culatra, na medida em que empresas ocidentais e chinesas costuram seus próprios acordos.

“Esta joint venture entre a Stellantis e a Leapmotor reflete o desacordo entre as companhias europeias e os políticos do próprio continente, já que, na contramão dos benefícios pessoais que os legisladores buscam, assumindo uma posição crítica em relação à China, as empresas querem e precisam maximizar seus lucros com este tipo de cooperação”, analisa o pesquisador associado do Instituto de Estudos Europeus (IES) da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS), Yang Chengyu. De acordo com Chengyu, há um movimento de “dissociação econômica” liderado politicamente pelos Estados Unidos que, além de infundado, vem perturbando as relações entre a União Europeia e a China. “Ao contrário dos políticos, os executivos têm uma visão objetiva do desenvolvimento da indústria automotiva, cujo crescimento só se opera por vantagens competitivas e com base no multilateralismo”, pontua o especialista.

Para quem não se lembra, no final de julho, a Volkswagen anunciou o investimento de US$ 700 milhões (o equivalente a US$ 34 bilhões) para aquisição de 5% da Xpeng Motors, antecipando o movimento da Stellantis.

Ponto final

A joint venture entre a Stellantis e a Leapmotor é anunciada ao mesmo tempo em que a General Motors e a Honda dão um ponto final ao plano de desenvolvimento de EVs de entrada, que seriam vendidos globalmente – o primeiro lançamento comercial estava agendado para 2017. “Cada empresa continuará, a partir de agora, com seus programas individuais. Cada fabricante tentará sua solução, separadamente, já que o programa conjunto foi cancelado”, disse a porta-voz da GM, Sanaz Marbley. A gigante norte-americana enfrenta problemas de ordem trabalhista em suas principais unidades, nos Estados Unidos, com paralisações que já custaram US$ 800 milhões (quase R$ 4 bilhões, em lucros cessantes) e que, em termos técnicos, levou à revisão da previsão de lucro de US$ 14 bilhões, prometida para os investidores no início deste ano. “É um ambiente de negócios turbulento e, em função disso, arquivamos nossa parceria com a GM”, comunicou o CEO da Honda, Toshihiro Mibe.

A cada semana, fica mais evidente que as transnacionais que dominam o setor automotivo, há 70 anos, ficaram para trás das startups chinesas, já na largada da virada da eletromobilidade. “A União Europeia – os Estados Unidos e o Brasil, principalmente – deve tomar a China como exemplo e adotar medidas políticas concretas para impulsionar as relações econômicas e comerciais bilaterais que propiciam um novo ciclo de crescimento para o setor automotivo”, aconselha o secretário-geral da Associação de Automóveis de Passageiros da China (CPCA), Cui Dongshu. “O investimento das montadoras europeias nos EVs chineses reflete, apenas e tão somente, seu reconhecimento das tecnologias desenvolvidas domesticamente e das oportunidades trazidas pelo nosso enorme mercado. O aumento da cooperação com a China também acelerará a transição verde na União Europeia”, acrescenta Dongshu, como se estivesse lecionando para os legisladores europeus. “A China não fechará suas portas ao mundo. Pelo contrário, se tornará cada vez mais aberta e medidas protecionistas serão um bumerangue, porque nenhum outro país tem uma cadeia de abastecimento tão sustentável, sequer viável”.

O “recado” da CPCA é dado, justamente, na hora em que o Brasil ensaia passos ditados pelas subsidiárias instaladas no país, que morrem de medo de uma invasão dos EVs chineses, desvelando suas práticas espoliativas por aqui. Ou seja, os líderes brasileiros de mercado não querem que os consumidores saibam que pagam os maiores preços do mundo pelos piores carros do planeta, nem que há EVs chineses muito mais modernos que um Fiat Argo ou Chevrolet Onix por menos de R$ 45 mil. A desculpa das montadoras, que há décadas atribuem os valores aviltantes à alta carga tributária nacional, já não cola como antes, até porque qualquer pessoa que tenha cursado o primário sabe fazer uma conta simples, somar e subtrair. E, pior, são os fabricantes que toda vida criticaram impostos escorchantes que, agora, clamam pelo aumento desta mesma carga tributária – inflacionando os EVs chineses.