Depois de cinco anos de retração nos EUA e perdas de 6% em 2023, marca se prepara para a eletrificação; no Brasil, vendas caíram 14%

No final do ano passado, Antonio Filosa deixou o comando da Stellantis América do Sul para se tornar presidente-executivo (CEO) da Jeep, assumindo o mais alto posto dentro da marca em nível global. Filosa, que é bastante “rodado”, já sabia que não teria um desafio qualquer pela frente. As vendas da Jeep caíram 6,1% nos Estados Unidos, só em 2023, e este foi o quinto ano consecutivo de retração. De quase um milhão de unidades, registradas em 2018, a marca viu seus números despencarem para pouco mais de 640 mil unidades, no ano passado. “Precisamos fazer algo em relação à participação da Jeep no mercado norte-americano, porque ela não está onde merece”, reconheceu o novo CEO em um encontro com a imprensa especializada, em Detroit, na última sexta-feira. “Estamos reduzindo preços – o desconto chega a US$ 4.000 ou o equivalente a R$ 19.950, no caso do Grand Cherokee – e, com a eletrificação, dando mais liberdade de escolha para o consumidor com diferentes opções de propulsão”, acrescentou.

No Brasil, a Jeep também vem perdendo espaço e volume, com queda de 14,5% nos dois últimos anos e apenas dois modelos híbridos – nenhum 100% elétrico –, partindo de valores (R$ 347.300, para o Compass 4xe) muito superiores aos da concorrência chinesa. Apesar disso, não há previsão para uma redução de preços por aqui, como anunciado para os EUA. O plano de recuperação de Filosa não deve se limitar à América do Norte, onde William Peffer foi nomeado como nova liderança, e pode movimentar algumas peças no tabuleiro brasileiro, talvez em relação ao marketing.

“Os revendedores são muito importantes e os ouvimos todos os dias, porque sentimos que nossa relação pode ser melhorada”, expôs Filosa. Na ponta do negócio, os concessionários viram como o aumento das taxas de juros praticadas nos EUA empurraram muitos consumidores para marcas e modelos mais em conta. O resultado prático disso é que os estoques subiram e a Jeep teve que reduzir sua produção, além de acelerar o lançamento de seus dois primeiros EVs norte-americanos: o Recon, espécie de versão eletrificada do clássico Wrangler, que só chega no último trimestre; e o Wagoneer S, um “SEV” do porte do Grand Cherokee que chega entre julho e agosto, com 600 cv, seletor com cinco modos de condução/piso (Sand, Snow, Eco, Auto e Sport) e sistema de áudio da prestigiadíssima McIntosh, com 19 alto-falantes.

Filosa e a Jeep começaram o ano sob pressão de ninguém menos que Carlos Tavares, todo-poderoso da Stellantis, e ambos terão que apresentar bons resultados no curto prazo. “No ano passado, não me parece que tenhamos alcançado a excelência nem em produção, nem em marketing, nem em distribuição e nem em fluxo de caixa. Mas estou confiante que este ano será melhor do 2023 em todos estes aspectos”, disse Tavares em uma teleconferência com a imprensa especializada, numa fala que mais alertou do que alentou seu subordinado.

Fora da China

“A Jeep conseguiu se posicionar em um segmento mais sofisticado, mas seus automóveis estão mais caros do que nunca. Grandalhões como o Grand Wagoneer e o Grand Cherokee foram o sonho de consumo dos norte-americanos durante décadas e, pessoalmente, acho que ainda são, mas as pessoas não conseguem mais comprá-los em função dos próprios preços e das altas taxas de juros”, avalia a diretor de insight da Edmunds, Jessica Caldwell. Outro ponto que conta – e muito –, a recente falência da Jeep, na China, prova que a eletrificação é um fator imprescindível à competitividade. “As montadoras ocidentais têm que rever sua lógica”, alerta o sócio da consultoria de gestão Oliver Wyman, Marco Santino. “As marcas chinesas adotaram a eletrificação, enquanto a Stellantis – dona da Jeep, que apostou nos motores térmicos – viu a capacidade ociosa de sua fábrica saltar de 57% para 87%”, lembra Santino. “Os chineses não querem mais um Jeep”.

A China é, hoje, o maior mercado do mundo – foram vendidos mais de 30 milhões de carros de passeio e comerciais leves, atrás da Grande Muralha, contra 15,6 milhões, nos Estados Unidos – e a Stellantis não tem nenhuma de suas marcas entre as “10 mais” do mercado chinês. Hoje, para cada automóvel vendido no Brasil, são vendidos 10,5 na China, cujo volume é superior à soma dos mercados alemão, britânico, francês, italiano, turco, espanhol, polonês e belga, mais Japão, Canadá, Coreia do Sul, México e Austrália.

De volta à Filosa, o novo CEO da Jeep acha que 2025, e não este ano, será o grande teste para os EVs da marca, o Recon e o Wagoneer S. “Até dezembro, esperamos vendas de 10 mil modelos 100% elétricos no mercado norte-americano, além de 175 mil híbridos plug-in. Sei que estamos eletrificando nossa gama mais tarde do que muitos de nossos concorrentes, mas ingressos ‘melhor’ do que muitos deles neste nicho. Teremos uma gama completa, com modelos equipados com motores a combustão interna, híbridos e EVs, sendo que, neste momento, também estamos agregando mais conteúdo em 90% de nossa linha”, destacou.

É esperar para ver e torcer para que ao menos um pouco desta maturidade corporativa e comercial respingue por aqui, no Brasil…