Reparo das baterias ultrapassa facilmente os R$ 100 mil; nos EUA, apólices já estão 27% mais caras

Mesmo o menor dano na bateria de um EV pode comprometer o pacote inteiro e, por conseguinte, decretar a perda total de um carro aparentemente novo; o problema é que o aumento de custos para a seguradoras tende a ser pulverizado e isso significa que os donos de modelos convencionais, equipados com motor a combustão, também vão pagar o pato
EV Life/DIVULGAÇÃO

A virada da eletromobilidade está mudando os hábitos de europeus, norte-americanos e asiáticos, mexendo com o mercado de usados e até mesmo com o segmento de seguros. Este último enfrenta um grande desafio, já que mesmo o menor dano na bateria de um EV pode comprometer o pacote inteiro e, por conseguinte, decretar a perda total de um carro aparentemente novo. Nos Estados Unidos, a apólice de um modelo 100% elétrico tem preço, em média, 27% mais alto. “Mesmo assim, na prática vemos prêmios mais altos e menores ganhos para as seguradoras. Some a isso o fato de estas baterias já estarem se acumulando em ferros-velhos, o que vai de encontro ao conceito de economia circular e na contramão da sustentabilidade”, observa o diretor de pesquisas da consultoria de inteligência e risco Thatcham Research, Matthew Avery. “Um automóvel não é tão sustentável quanto se imagina se, depois de um leve acidente, temos que descartar seu pacote de baterias. Estamos falando de um item que representa até 50% do custo de produção de um EV e que pode custar dezenas de milhares de dólares – ultrapassando, facilmente, a casa dos R$ 100 mil”, acrescentou.

O leitor mais atento deve estar imaginando que, num primeiro momento, as seguradoras não terão outra alternativa a não ser inflacionar os contratos, diante da inviabilidade da substituição do pacote de baterias e, em decorrência disso, da perda total do veículo. O problema é que, num mercado tão competitivo como o de seguros automotivos, o aumento de custos tende a ser pulverizado, evitando encarecer demais só para os EVs. Na ponta do lápis, isso significa que os donos de modelos convencionais, equipados com motor a combustão, também vão pagar o pato. “Enquanto algumas montadoras, como Ford e General Motors, garantem que as baterias usadas em seus automóveis são fáceis de consertar, a Tesla adota o caminho oposto, com seu Model Y, cuja nova bateria estrutural tem ‘reparabilidade zero’, de acordo com a própria marca”, destaca Avery.

A perda total é declarada pela seguradora quando os custos de reparo superam 75% do valor de mercado do automóvel acidentado, independentemente de ele estar parcialmente danificado ou totalmente destruído – nos Estados Unidos, esse percentual varia de 70% a 80%, mas existem países onde o custo de reparo tem que superar em 100% o valor de mercado do carro sinistrado. A Agência Reuters analisou dados dos mercados europeu e norte-americano e apurou que a maioria dos Tesla dados como perda total, em 2022, tinha baixíssima quilometragem. “As seguradoras estão preocupadas, porque esta tendência está em alta e, no caso específico da Tesla, a solução de engenharia que integrou as baterias à estrutura, ao monobloco, reduz os custos de produção da marca, mas acaba empurrando este custo para seus próprios clientes e, indiretamente, para as seguradoras”, avalia o diretor administrativo do Allianz Center for Technology, Christoph Lauterwasser.

As seguradoras garantem que sabem como resolver o problema: os módulos devem ter seções de baterias menores e dados de diagnose abertos para reparadores independentes. “Adotamos, sim, uma postura mais cautelosa, afinal, nenhuma seguradora vai correr riscos de enfrentar um processo, mais tarde, se algo acontecer um aquele veículo que ela não declarou como perda total”, justifica o gerente de produtos da corretora francesa AXA, Andy Keane. “O custo da substituição de uma bateria é, economicamente, inviável. Na Alemanha, por exemplo, os prêmios pagos para EVs já representam 8% dos custos de indenização”.

Conserto ‘espiritual’

Questionada pelas Reuters, a Ford afirmou que “o processo para reparo do módulo de baterias foi simplificado, pelo sistema de substituição de bandejas”, mas isso só é possível se apenas a parte externa do pacote estiver danificada. A GM disse que os módulos de suas novas baterias Ultium são projetados para reparo, o que é “significativamente mais barato do que a substituição do conjunto inteiro”, uma resposta genérica que não detalha nem fundamenta nada. A Nissan, por sua vez, respondeu que módulos individuais de seus EVs podem ser substituídos, mas só nos seus concessionários: “nossos revendedores têm todo o treinamento e ferramental especial necessários para garantir a qualidade e as necessidades de reparo das baterias”. A Renault se limitou à declaração de que os pacotes que equipam seus EVs podem ser reparados em “centros de baterias” – deve ser uma nova modalidade de centro espírita, onde o “Caboclo Consertador” faz o serviço, espiritualmente.

Por fim, a Stellantis disse que não conserta baterias após acidentes em que os airbags são acionados – melhor ouvir uma resposta franca do que ser feito de otário pelos demais fabricantes. “Não temos registro de negativa em segurar qualquer um de nossos modelos, por nenhuma empresa, mas notamos, sim, que os valores dos contratos são excessivamente altos”, comentou o presidente-executivo (CEO) da Tesla, Elon Musk.

Outro problema que as seguradoras enfrentam é a blindagem que as próprias montadoras fazem, em relação aos módulos de baterias que utilizam em seus EVs, impedindo que mesmo as oficinas especializadas façam reparos e assegurando uma espécie de monopólio para seus pontos assistenciais autorizados. “A menos que a Tesla e outras montadoras produzam baterias mais facilmente reparáveis ou permitam o acesso de terceiros aos dados de reparo das suas baterias, os valores de seguro continuarão aumentando à medida que as vendas crescem, neste segmento, e mais EVs de baixa quilometragem têm perda total”, pondera Christoph Lauterwasser, do instituto de pesquisa pertencente à seguradora Allianz, lembrando que, na produção de baterias, se emite muito mais CO2 do que na fabricação de um modelo tradicional, equipado com motor a combustão, e isso quer dizer que um EV tem que rodar milhares de quilômetros para ‘amortizar’ essas emissões.

De acordo com o provedor de conteúdo financeiro Bankrate, o custo para substituir esse componente-chave nunca fica abaixo de US$ 15 mil e, no caso do Model 3, da Tesla, ele pode custar até US$ 20 mil, para um veículo que custa cerca de US$ 43.000, mas deprecia rapidamente.  “Quando você descarta um EV com baixa quilometragem, praticamente toda a vantagem em termos de emissões de CO2 se perde”, sublinha Lauterwasser.

“Direto para o triturador”

A maioria das montadoras jura, de pés juntos, que seus módulos são “consertáveis”, mas poucas ou nenhuma delas parecem dispostas a compartilhar os dados de reparo. Na União Europeia (UE), seguradoras, empresas de leasing e oficinas mecânicas já judicializaram o tema. A Allianz viu baterias arranhadas onde as células internas não estavam danificadas, mas, por falta de dados para um diagnóstico, a seguradora precisou declarar a perda total do EV. “Estamos promovendo alterações de design e software para reduzir os custos de reparo das baterias de nossos modelos e, consequentemente, reduzirmos os valores do seguro para nossos clientes”, garantiu Elon Musk, da Tesla, que parece ter sempre uma resposta escondida na manga, para esfriar o debate. “De qualquer forma, oferecemos proteção dedicada para nossos automóveis, em pelo menos uma dúzia de Estados norte-americanos, que garantem preços mais baixos para os clientes”, acrescenta Musk, deixando escapar que, na verdade, está de olho na venda casada.

É verdade que, por serem recheados com o que há de mais avançado no mercado automotivo, em termos de recursos dinâmicos e assistentes de direção, os EVs protagonizam, até agora, menos acidentes do que os carros tradicionais. Mas isso não resolve o problema em questão. “A bateria estrutural de um Tesla que se envolve em acidente vai direto para o triturador”, conta Sandy Munro, diretor da Munro & Associates, empresa com com sede em Michigan (Estados Unidos) que desmonta veículos e faz recomendações para as montadoras sobre como melhorá-los, no quesito reparabilidade. “Ou seja, todo o viés ecológico da economia circular vai para o buraco”.

No Reino Unido, a maior empresa de reboque da Inglaterra, a Synetiq, viu o número de EVs que ficam em quarentena no seu pátio em Doncaster, para verificação de risco de incêndio, saltar de quatro para 20 modelos por dia. “É um crescimento exponencial e que engloba todas as marcas. Hoje, o país não possui instalações para reciclagem de baterias de veículos elétricos, então, removemos os módulos e os armazenamos em contêineres”, conta o chefe de operações da Synetiq, Michael Hill. “Estimamos que 95% das células, tanto das baterias de EVs quanto das usadas em modelos híbridos, podem ser reutilizadas em novos pacotes”, acrescentou Hill.