O cancelamento do Projeto Titan pela Apple, dando fim ao seu plano de entrar no segmento automotivo com um modelo autônomo (AV), matou o “iCar” antes mesmo de ele nascer, e foi recebido com alívio por gigantes como Ford, General Motors e Stellantis. A Bloomberg reportou, nesta semana, que Steve Jobs perdeu nada menos que US$ 1 bilhão (o equivalente a quase R$ 5 bilhões) anuais com o projeto na última década, antes de engavetá-lo. “Pelo menos por enquanto, os fabricantes tradicionais têm menos um concorrente com que se preocupar num setor automotivo inchado e que atravessa seu maior período de incertezas. No caso da Apple, especificamente, estamos falando de um adversário que tem US$ 61 bilhões – o equivalente a mais de R$ 300 bilhões – em caixa para gastar e que vem do segmento de tecnologia. Certamente, elas estão aliviadas, porque o ingresso da marca da maçã nessa briga assustou as grandes montadoras, não duvide disso”, comenta o analista Mike Ramsey, da consultoria norte-americana Gartner, que fornece orientação especializada para gestão corporativa. “Mas a saída da Apple do mercado de EVs e AVs, antes mesmo de lançar seu primeiro produto, também mostra o quão difícil este negócio se tornou”, alerta Ramsey.

Há cerca de dez anos, a Apple iniciou a contratação de centenas de engenheiros automotivos para lançar seu primeiro AV, um “microônibus” apelidado de ‘Bread Loaf’, no início de 2020. Rapidamente, os gestores do projeto se deram conta de que o lançamento só ocorreria em 2025, acumulando gargalos que nunca foram superados. “Em 2014, Jobs considerou comprar a Tesla Motors. Na época, ela valia menos de US$ 30 bilhões – hoje, vale R$ 565 bilhões, mas chegou a valer mais de US$ 1,05 trilhão, em 2021 – mas o próprio presidente-executivo (CEO) da Apple, Tim Cook, o convenceu a desistir do negócio. Posteriormente, eles se reuniram com Elon Musk, para discutirem uma colaboração entre as marcas, mas as conversas não avançaram”, conta o jornalista Nick Bunkley, um dos ‘heads’ da “AutoNews”.

BMW, VW, Canoo e Lincoln

As tratativas não ficaram por aí e a Apple também conversou por meses com a Mercedes-Benz, sobre uma parceria industrial em que a marca alemã produzisse o ‘iCar’ usando a plataforma autônoma do Vale do Silício, tendo como contrapartida a possibilidade de usar esta mesma base para o desenvolvimento dos AVs da estrela de três pontas – note que não estamos falando apenas de veículos elétricos (EVs), mas de modelos autônomos (AVs) que dispensam motorista. “Jobs, finalmente, decidiu que o lançamento seria produzido por conta própria, mas ele também negociou com a BMW, a Volkswagen, a Canoo e esteve muito perto de um acordo com a McLaren”, assegura Bunkley. “Antes de a Ford ‘tomar’ da Apple o chefe do Projeto Titan, Doug Field, a marca propôs à Apple construir o ‘iCar’ e vendê-lo com a marca Lincoln, mas isso foi totalmente descartado por Jobs”.

Na prática, os EVs ainda são caros para o consumidor norte-americano, isso sem falar nas particularidades regulatórias de cada Estado, e não há sequer uma legislação federal para os AVs. Espera-se que as vendas de modelos 100% elétricos cresçam 9%, neste ano, depois de um boom, que, entre 2020 e 2030, chegou a uma taxa composta de 65%. Na ponta do lápis, a Bloomberg Intelligence calcula que todas as marcas tradicionais e todas as startups do segmento se digladiarão por menos de 10% do mercado, nos Estados Unidos, que tem o segundo maior volume de vendas do mundo, atrás apenas da China. No caso das startups, a Rivian Automotive revelou que não aumentará sua produção e demitirá colaboradores, o que levou suas ações à maior queda desde sua entrada na bolsa. Já o Lucid Group produzirá apenas 9.000 unidades neste ano, o que significa contração nas contas.

Justamente a Tesla, que chegou a reduzir os preços de seus modelos em até 25%, é a marca que mais pode se beneficiar da desistência da Apple. “Fica a impressão de que o setor tecnológico subestimou o automotivo”, avalia o vice-presidente mundial da GlobalData, Jeff Schuster. “Temos muitos talentos à disposição do mercado de trabalho e eles serão pinçados por fabricantes que, agora, não terão mais pesadelos com um adversário do Vale do Silício. São as voltas que o mundo dá”, conclui.