A novidade foi apresentada hoje (17/10/122) no Salão de Paris; no Brasil, marca segue presa ao passado com o Duster

A Renault acaba de apresentar, no Salão do Automóvel de Paris (Paris Motor Show), o 4ever Trophy, carro-conceito que antecipa seu novo SUV compacto e 100% elétrico, que será lançado comercialmente, na Europa, em 2025. “Este protótipo corresponde a 95% daquilo que será a versão de produção”, garantiu o diretor de design da montadora, SandeepBhambra. Visualmente, o modelo revelado na França tem forte inspiração no Renault 4 (4L ou ‘Quatrelle’), um verdadeiro clássico da marca que vendeu mais de oito milhões de unidades entre 1966 e 94. “O modelo original foi um pioneiro entre os multiuso, já que foi igualmente popular entre os usuários urbanos e rurais, devido a sua maior altura interna e grande capacidade de carga. São atributos que, posso assegurar, o novo Renault 4 reviverá”, acrescentou Bhambra.

De acordo com dados da Dataforce, consultoria que fornece análises preditivas, de rotulagem e desenvolve soluções de marketing, as versões totalmente elétricas – nominalmente, o OpelMokka-e, Peugeot e-2008 e Hyundai Kona Electric, este último o líder de vendas dentre os três – já têm uma participação de 5%, no segmento de SUVs, na Europa. “Para 2027, projetamos que esta participação vai chegar em 45%”, estima o presidente-executivo (CEO) do grupo, Luca de Meo. “E não podemos esquecer que, no ano passado, este foi o nicho – o dos SUVs compactos – de maior volume no Velho Continente, com mais de um milhão de veículos”, acrescentou de Meo.

O fabricante aposta, claramente, no estilo retrô para atrair, principalmente, o público jovem, tanto é que também terá uma “reinterpretação” nostálgica do Renault 5 em sua gama eletrificada.

Novo 4 EV versus Duster

Com 4,16 metros de comprimento, o 4ever Trophy é 21 cm mais curto que o Duster brasileiro e, ao que tudo indica, tanto o pacote de baterias de 42 kWh quanto o motor elétrico de 100 kW do carro-conceito migrarão para a versão de produção – o SUV ‘made in Brazil’ conta com motores térmicos 1.6 litro 16V, de 120 cv, e turbo alimentado TCe 1.3, de 170 cv, que ou já foram descontinuados, na Europa, ou estão em processo de aposentadoria. O novo Renault 4 EV será montado sobre a mesma a plataforma CMF-BEV dos novos Renault 5 EV e Micra EV, da Nissan – trata-se de uma base que comuta 50% dos componentes da plataforma CMF-B usada por compactos com propulsores a combustão interna, como a atual geração do Clio europeu.

“Com a base CMF-BEV, conseguimos uma redução de custos – de produção – de 30%, em relação à plataforma dedicada do Zoe”, comentou a diretora de produto, Laure Gregoire. “Ele será feito na fábrica de Maubeuge (‘Hauts-de-France’ ou Alta França), que faz parte do complexo ‘ElectriCity’, portanto em uma unidade diferente do Renault 5 EV, que será feito em Douai, também na Alta França – o local de produção do novo Micra EV não foi revelado”, acrescentou Laure.

O protótipo revelado em Paris tem um grande apelo off-road, com destaque para pára-lamas alargados, suspensão elevada e acessórios de resgate, com destaque para pá e estepe montado no teto, além de rodas aro 19 polegadas. Visto de frente, o 4ever Trophy sobressai pelos faróis arredondados integrados na grade e pelas lanternas traseiras em forma de cápsula – vulgo, comprimido. Seu perfil é de um hatchback muscularizado e a pequenina janela trapezoidal, logo após a coluna C, usa de um maneirismo estético para sugerir que se trata de um automóvel de quatro colunas – o que não é verdade.

Mobilize evidencia descompasso
Infelizmente e por uma obrigação jornalística, somos obrigados a destacar que a apresentação do futuro Renault 4 EV, bem como o anúncio pela marca da rede Mobilize Fast Charge – que detalharemos a seguir – são duas claras evidências do descompasso absurdo entre a matriz francesa e a subsidiária brasileira que, na verdade, espelha o que se opera em todo o setor automotivo, por aqui. A Mobilize é uma unidade do grupo, criada há apenas dois anos, com foco em serviços de mobilidade e a Fast Charge, uma rede de recarga com espaço de conveniência que terá 200 estações, até 2024. “Teremos carregadores de 400 kW – portanto, mais rápidas que os Supercharges de 300 kW, da Tesla – a apenas cinco minutos das principais rodovias europeias. Só na França, serão 90 pontos”, disse a presidente-executiva (CEO) da subsidiária, Clotilde Delbos.

A Mobilize também está sendo apresentada no Salão de Paris, também com uma nova proposta da Renault para gestão de frotas e compartilhamento de veículos – no seu estande, também estreiam o quadriciclo elétrico Duo e o scooter conceitual Solo, também 100% elétrico. “Nossas estações estarão disponíveis para recarga de veículos de outras marcas – diferentemente do que ocorre com a Tesla”, destaca Clotilde. “Entre nossos atrativos, teremos os melhores preços para a energia elétrica”, promete a executiva.

Como o leitor pode ver, há um vácuo entre a Renault europeia e a brasileira, que parece ter parado no tempo. É como se voltássemos ao Brasil dos anos 70 e 80, quando fabricávamos e comprávamos, por preços estratosféricos, veículos descontinuados na Europa e nos Estados Unidos. É uma espécie de neocolonialismo que, pelo visto, não só aceitamos, impassivelmente, como deve ser perpetuar nas próximas décadas.